"Tudo que eu tinha que fazer era ficar em casa, desistir de tudo, arranjar uma casinha para mim e pra mamãe, meditar, viver tranquilo, ler ao sol, tomar vinho ao luar com roupas velhas, afagar meus gatos, dormir com bons sonhos - e agora olha só o petrain* em que eu fui me meter, ah merda!"
*bagunça
Jack Kerouac, Anjos da Desolação
Entendo.
Tuesday, May 24, 2011
Monday, May 23, 2011
...
Será que o hidrante chora tantas lágrimas como eu?
Só o que eu lembro é que antes de eu nascer existia alegria. Na verdade eu lembro a obscura alegria contagiante de 1917 mesmo tendo nascido em 1922! Vésperas de ano-novo passaram e eu era pura alegria. Mas quando fui arrancado do ventre da minha mãe, azul, um bebê azul, eles gritaram para me acordar, e me deram palmadas, e desde então eu sou pessoa castigada e perdida para sempre e tudo mais. Ninguém me dava palmadas na alegria! Será que deus é tudo? Se deus é tudo então foi deus quem me bateu. Por motivos pessoais? Tenho mesmo que carregar este corpo de um lado para o outro e chamá-lo de meu?
Jack Kerouac, Anjos da Desolação
Só o que eu lembro é que antes de eu nascer existia alegria. Na verdade eu lembro a obscura alegria contagiante de 1917 mesmo tendo nascido em 1922! Vésperas de ano-novo passaram e eu era pura alegria. Mas quando fui arrancado do ventre da minha mãe, azul, um bebê azul, eles gritaram para me acordar, e me deram palmadas, e desde então eu sou pessoa castigada e perdida para sempre e tudo mais. Ninguém me dava palmadas na alegria! Será que deus é tudo? Se deus é tudo então foi deus quem me bateu. Por motivos pessoais? Tenho mesmo que carregar este corpo de um lado para o outro e chamá-lo de meu?
Jack Kerouac, Anjos da Desolação
Wednesday, May 18, 2011
beleza
Estava à toa na aula, então resolvi dar uma pesquisada sobre o Henry Miller (estou com saudade) e me deparei com esse belo trecho:
A man writes to throw off the poison which he has accumulated because of his false way of life. He is trying to recapture his innocence, yet all he succeeds in doing is to inoculate the world with a virus of his disillusionment. No man would set a word down on paper if he had the courage to live out what he believed in....
The Rosy Crucifixion I : Sexus (1949), Chapter 1. (New York: Grove Press, c1965, p. 17-18)
A man writes to throw off the poison which he has accumulated because of his false way of life. He is trying to recapture his innocence, yet all he succeeds in doing is to inoculate the world with a virus of his disillusionment. No man would set a word down on paper if he had the courage to live out what he believed in....
The Rosy Crucifixion I : Sexus (1949), Chapter 1. (New York: Grove Press, c1965, p. 17-18)
Wednesday, April 06, 2011
mortalhas & hesitações
Há uma árvore neste peito. Sinto-a espalhar-se o tempo inteiro. É o início da primavera. Vou contar a vocês quando as folhas vão começar a cair. Elas nunca irão começar a cair.
Neste peito há uma árvore que nunca pára de crescer.
Diários de Jack Kerouac
Neste peito há uma árvore que nunca pára de crescer.
Diários de Jack Kerouac
Thursday, March 24, 2011
...
You've said all that
Of course I've said all that.
What do you want?
I want to be on fire.
Why?
Because I'm inflammable. I
am serious.
You've said all that -
Of course I've said all that.
You don't know what you want,
And you say life is not enough.
Life is not enough.
Then what is enough?
To feel - or I die.
What will you feel?
Fires.
Then go ahead and burn.
But life is not on fire.
Then die.
Corporeally?
--
Yes.
Jack Kerouac
Of course I've said all that.
What do you want?
I want to be on fire.
Why?
Because I'm inflammable. I
am serious.
You've said all that -
Of course I've said all that.
You don't know what you want,
And you say life is not enough.
Life is not enough.
Then what is enough?
To feel - or I die.
What will you feel?
Fires.
Then go ahead and burn.
But life is not on fire.
Then die.
Corporeally?
--
Yes.
Jack Kerouac
Tuesday, March 22, 2011
Segunda-Feira, 23 de Agosto de 1948
Bem, esses são meus sentimentos... Quanto a mim, a base de minha vida vai ser uma fazenda em algum lugar onde vou produzir parte de minha própria comida, e, se necessário, toda ela. Um dia não vou fazer coisa alguma além de sentar embaixo de uma árvore para ver minha lavoura crescer (depois do trabalho devido, claro) - e beber vinho caseiro, e escrever romances para edificar meu espírito, e brincar com meus filhos, e relaxar, e gozar a vida, e brincar, e assoar o nariz. Eu digo que eles não merecem nada além de desprezo por isso, e a próxima coisa que você sabe, claro, eles todos estarão marchando para alguma guerra aniquiladora que seus líderes corruptos começarão para manter as aparências (decência e honra) e "fechar as contas". Afinal, que aconteceria com o sistema precioso de gastos e despesas se nossas exportações encontrassem concorrência na Rússia. Caguei para os russos, caguei para os americanos, caguei para todo mundo. Vou viver a vida do meu jeito "preguiçoso coisa ruim", é isso que eu vou fazer. - Esta noite li Notas do Subterrâneo. Outra noite tinha lido No Coração das Trevas, você sabe. Agora vou ler muito. Também lendo Tom Sawyer Abroad. Comecei o último capítulo em um estilo relaxado, só para ver como vai funcionar. O único problema com meu texto é o excesso de palavras... mas, veja só, "pensamentos verdadeiros" abundam em Town and City, o que anula o mínimo dano do excesso de palavras. Agora vou afiar as coisas. Tenho outro romance em mente - On the Road* - sobre o qual estou sempre pensando: sobre dois caras que vão de carona para a Califórnia em busca de algo que na verdade eles não encontram, e se perdem na estrada, e fazem todo o caminho de volta com esperanças de algo mais. Além disso, estou descobrindo um novo princípio da literatura. Mais depois.
*primeira menção que Kerouac faz a On the Road em seus diários
*primeira menção que Kerouac faz a On the Road em seus diários
Saturday, March 12, 2011
não se pode derrotar a sinceridade
Cheguei em casa pensando, "Agora vou contar a vocês o que eu penso sobre tudo". Pensei em "tomar uma decisão" de uma vez por todas, mas acabei percebendo que eu estou no caminho certo em nunca "tomar uma decisão". Ainda digo que minha vida é um esforço contínuo para alcançar a perfeição da dúvida - (e isso é mais religioso do que parece). Meu tipo de dúvida não é propositadamente desdenhosa. Também compreendi que apesar de, na verdade, eu ser um cara muito burro no meio de um monte de amigos inteligentes e brilhantes, eu mesmo tenho uma inteligência significativa. Se eles (sabem tudo), e eu, nada, ainda assim sei a relevância de tudo.
Os homens chegam ao rio do destino e não podem fazer outra coisa que não atravessá-lo.
Diários de Jack Kerouac, 1947-1954
Os homens chegam ao rio do destino e não podem fazer outra coisa que não atravessá-lo.
Diários de Jack Kerouac, 1947-1954
Sunday, March 06, 2011
i will
Esta noite vou escrever muito bem e amar muito bem e estrangular essa loucura. Estou sentindo na carne essas malditas mudanças de intenção, as mãos ensangüentadas, e vou jogá-las aos ventos, assim. Eu desafio o que quer que venha a mim em horas como essa para me olhar nos olhos, eu desafio pela propriedade de meu ser: - talvez pela variedade. Oh, sim, sei que nunca deveria ter sido um escritor, não é da minha natureza, mas vamos ver isso no final. 2000 palavras esta noite.
Diários de Jack Kerouac, 1947-1954
Diários de Jack Kerouac, 1947-1954
Tuesday, February 15, 2011
trecho da oitava elegia
Quem nos inverteu assim, para que,
não importa o que façamos, estarmos na postura
de alguém que se vai? E como aquele, na última
colina, da qual vê - uma vez mais - o seu vale
por inteiro, volta-se, aguarda, hesita -:
assim vivemos nós, sempre em despedida
Rainer Maria Rilke, Elegias de Duíno
não importa o que façamos, estarmos na postura
de alguém que se vai? E como aquele, na última
colina, da qual vê - uma vez mais - o seu vale
por inteiro, volta-se, aguarda, hesita -:
assim vivemos nós, sempre em despedida
Rainer Maria Rilke, Elegias de Duíno
Monday, February 14, 2011
VIII
Só no espaço do louvor, o lamento
pode soar, ninfa da fonte do medo,
pairando sobre nosso tormento;
lágrima clara no mesmo rochedo
que suporta altares e portais.
Vê: sustenta nos ombros potentes
a certeza de que ela seria a mais
jovem dentre as irmãs no sentimento.
Júbilo professa, saudade confessa;
só a queixa ainda aprende. Sem pressa,
desvela, noites a fio, o mal atroz.
De repente, inexperiente e curva,
ergue a constelação de nossa voz
para os céus que seu sopro não turva.
Rainer Maria Rilke, Os Sonetos a Orfeu
pode soar, ninfa da fonte do medo,
pairando sobre nosso tormento;
lágrima clara no mesmo rochedo
que suporta altares e portais.
Vê: sustenta nos ombros potentes
a certeza de que ela seria a mais
jovem dentre as irmãs no sentimento.
Júbilo professa, saudade confessa;
só a queixa ainda aprende. Sem pressa,
desvela, noites a fio, o mal atroz.
De repente, inexperiente e curva,
ergue a constelação de nossa voz
para os céus que seu sopro não turva.
Rainer Maria Rilke, Os Sonetos a Orfeu
Monday, January 24, 2011
graças a deus eu não sou deus!
Ó, devo estar maluco a ficar por aqui sentado sozinho no vazio & espiando & construindo pensamentos de amor!
Mas do que devo duvidar a não ser dos meus próprios olhos brilhantes, o que tenho a perder a não ser a vida que hoje é uma visão nesta tarde.
Allen Ginsberg, Iluminação de Sather Gate
Mas do que devo duvidar a não ser dos meus próprios olhos brilhantes, o que tenho a perder a não ser a vida que hoje é uma visão nesta tarde.
Allen Ginsberg, Iluminação de Sather Gate
Wednesday, January 19, 2011
Transcrição de Música de Órgão
Meus livros empilhados à minha frente para meu uso aguardando no espaço onde os coloquei, eles não desapareceram, o tempo deixou seus restos e qualidades para que eu os usasse - minhas palavras empilhadas, meus textos, meus manuscritos, meus amores.
Allen Ginsberg
Allen Ginsberg
a verdade é a verdade
Toda nossa vida parece não passar de um esforço frenético para fugir do que está constantemente ao nosso alcance. Isso que é o próprio avesso do miraculoso é apenas medo. O homem não possui outro inimigo real além deste que carrega dentro de si.
Ele toldava a questão real com uma cortina de fumaça produzida pelas palavras; lutava como um louco para cegar a própria visão do caminho que estava predestinado a seguir. O mundo tem sido ao mesmo tempo bondoso e cruel com ele, na medida da dualidade e do antagonismo que Balzac gerava. Aceitou-o como um dos maiores gênios humanos; e parmaneceu ignorante do objetivo que colimava. Ele queria fama, glória, reconhecimento: recebeu-os. Queria riqueza, bens, poder sobre os homens: obteve tudo isso. Queria criar um mundo próprio: criou-o. Mas a verdadeira vida que secretamente desejava foi-lhe negada - porque não se pode ter um pé num mundo e o outro em outro mundo. Ele não aprendera a lição da Renúncia: renunciara ao mundo, não para abdicar, mas para conquistar. Nos seus momentos de iluminação percebia a verdade, mas nunca foi capaz de viver de acordo com a sua visão. No caso dele, conforme permite Seraphita dizer com ofuscante clareza, foi realmente uma luz que mata o homem que não está preparado para recebê-la.
Henry Miller, A Sabedoria do Coração
Ele toldava a questão real com uma cortina de fumaça produzida pelas palavras; lutava como um louco para cegar a própria visão do caminho que estava predestinado a seguir. O mundo tem sido ao mesmo tempo bondoso e cruel com ele, na medida da dualidade e do antagonismo que Balzac gerava. Aceitou-o como um dos maiores gênios humanos; e parmaneceu ignorante do objetivo que colimava. Ele queria fama, glória, reconhecimento: recebeu-os. Queria riqueza, bens, poder sobre os homens: obteve tudo isso. Queria criar um mundo próprio: criou-o. Mas a verdadeira vida que secretamente desejava foi-lhe negada - porque não se pode ter um pé num mundo e o outro em outro mundo. Ele não aprendera a lição da Renúncia: renunciara ao mundo, não para abdicar, mas para conquistar. Nos seus momentos de iluminação percebia a verdade, mas nunca foi capaz de viver de acordo com a sua visão. No caso dele, conforme permite Seraphita dizer com ofuscante clareza, foi realmente uma luz que mata o homem que não está preparado para recebê-la.
Henry Miller, A Sabedoria do Coração
Thursday, January 13, 2011
quem não arrisca...
Essa condição de sublime indiferença é um desenvolvimento lógico da vida egocêntrica. Vivi integralmente o problema social morrendo: o verdadeiro problema não é se dar bem com os vizinhos ou contribuir para o progresso do país, mas descobrir o próprio destino, procurar viver em harmonia com o ritmo bem centrado do cosmos. Ser capaz de usar a palavra cosmos com ousadia, usar a palavra alma, tratar de coisas "espirituais" - e esquivar-se de definições, álibis, provas, deveres. O paraíso está em toda a parte e toda estrada nos leva lá se seguirmos por ela tempo suficiente. Só pode avançar caminhando para trás e depois para o lado e depois subindo e depois descendo. Não há progresso: há um movimento, um deslocamento perpétuo que é circular, espiral, infindo. Cada homem tem o seu destino: o único imperativo é seguí-lo, aceitá-lo, a despeito de onde o leve.
Ninguém que se entregue voluntariamente à experiência pode se afogar no oceano da realidade. O pouco progresso que exista na vida não é fruto da adaptação mas da ousadia, da obediência ao impulso cego. "Nenhuma ousadia é fatal", disse René Crevel, uma frase que nunca hei de esquecer.
Henry Miller, A Sabedoria do Coração
Ninguém que se entregue voluntariamente à experiência pode se afogar no oceano da realidade. O pouco progresso que exista na vida não é fruto da adaptação mas da ousadia, da obediência ao impulso cego. "Nenhuma ousadia é fatal", disse René Crevel, uma frase que nunca hei de esquecer.
Henry Miller, A Sabedoria do Coração
dream is destiny
Pois o artista que existe no homem é o símbolo perene da união entre os eus conflitantes. É preciso dar um sentido à vida pela razão óbvia de que ela não tem sentido. Tem-se que criar algo que medeie de forma curativa e estimulante a vida e a morte porque a conclusão para a qual a vida aponta é a morte, e o homem, instintiva e persistentemente, fecha os olhos para este fato conclusivo. O sentido de mistério que existe no fundo de toda a arte é o amálgama de todos os terrores indizíveis que a realidade cruel da morte inspira. A morte então tem que ser vencida - ou disfarçada, ou transfigurada. Mas na tentativa de vencer a morte o homem é inevitavelmente obrigado a vencer a vida, pois as duas estão inextricavelmente ligadas. A vida caminha para morte, e negar uma é negar a outra. O sentido inexorável de destino que todo indivíduo criativo revela reside nessa consciência do objetivo, nessa aceitação do objetivo, nessa marcha para a fatalidade, que forma uma unidade com as forças inescrutáveis que o animam e o impelem.
Toda a história é o registro do memorável fracasso do homem em contrariar o destino.
Deve salvar o homem do medo da morte, para que seja capaz de morrer!
Henry Miller, A Sabedoria do Coração
Toda a história é o registro do memorável fracasso do homem em contrariar o destino.
Deve salvar o homem do medo da morte, para que seja capaz de morrer!
Henry Miller, A Sabedoria do Coração
Wednesday, January 12, 2011
wrong again*
Como pode ver, o infortúnio me ensinou a ser calculista. Uso a razão, nenhuma paixão. O senhor me obriga a lhe dizer que não o amo, que não devo, não posso nem quero lhe amar. Passei do momento da vida em que as mulheres cedem aos impulsos irrefletidos do coração e não mais saberia ser a amante que o senhor procura.
xxx
Junto a ela todas as outras mulheres empalidecem. É preciso ter passado pelo medo da perda de um amor tão vasto, tão brilhante, ou o haver perdido, para lhe dar todo o valor. Mas, se o tendo conhecido, um homem se vê privado dele para mergulhar em qualquer frio matrimônio; se a mulher com a qual esperou encontrar as mesmas felicidades que experimentou anteriormente lhe prova, por qualquer um desses atos amortalhados nas trevas da vida conjugal, que elas não renascerão para ele; se ele ainda conserva nos lábios o gosto de um amor celestial e se ele feriu de maneira mortal a sua verdadeira esposa em favor de uma ilusão social, então é preciso morrer ou adotar essa filosofia materialista, egoísta, fria, que horroriza as almas apaixonadas.
xxx
Sim, o homem, o coração, a alma que um dia conheci não mais existirão; eu os amortalharei na minha lembrança para mais uma vez desfrutar deles e viver feliz dessa bela vida passada, mas desconhecida de quem quer que seja que não nós dois.
Honoré de Balzac, A Mulher Abandonada
I'm so tired of thinking of it,
and I gain the wisdom to know what I need
And I've lost to much time thinking of that girl
Not let my anger tear me up the way I do, the way I do
I wake with head on in the morning
But seem to lose it somewhere along the way
And it don't feel right
Big Drill Car - Head On
*ALL
xxx
Junto a ela todas as outras mulheres empalidecem. É preciso ter passado pelo medo da perda de um amor tão vasto, tão brilhante, ou o haver perdido, para lhe dar todo o valor. Mas, se o tendo conhecido, um homem se vê privado dele para mergulhar em qualquer frio matrimônio; se a mulher com a qual esperou encontrar as mesmas felicidades que experimentou anteriormente lhe prova, por qualquer um desses atos amortalhados nas trevas da vida conjugal, que elas não renascerão para ele; se ele ainda conserva nos lábios o gosto de um amor celestial e se ele feriu de maneira mortal a sua verdadeira esposa em favor de uma ilusão social, então é preciso morrer ou adotar essa filosofia materialista, egoísta, fria, que horroriza as almas apaixonadas.
xxx
Sim, o homem, o coração, a alma que um dia conheci não mais existirão; eu os amortalharei na minha lembrança para mais uma vez desfrutar deles e viver feliz dessa bela vida passada, mas desconhecida de quem quer que seja que não nós dois.
Honoré de Balzac, A Mulher Abandonada
I'm so tired of thinking of it,
and I gain the wisdom to know what I need
And I've lost to much time thinking of that girl
Not let my anger tear me up the way I do, the way I do
I wake with head on in the morning
But seem to lose it somewhere along the way
And it don't feel right
Big Drill Car - Head On
*ALL
notas de uma bela obra.
O homem gosta de criar e de abrir caminhos, isto é indiscutível. Mas por que ele também ama com paixão a destruição e o caos? Digam-me, por favor! Entretanto, eu mesmo quero dizer duas palavras à parte sobre isso. Não poderia ser, talvez, que ele ame tanto a destruição e o caos (bem, é indiscutível que ele às vezes gosta muito, não há dúvida) porque ele mesmo, instintivamente, teme atingir o objetivo de concluir o edifício que estava construindo? Como os senhores podem saber? Talvez ele ame o edifício somente de longe e não o ame de perto; talvez ele ame apenas o ato de construí-lo, e não viver nele, abandonando-o depois aos animaux domestiques, como formigas, cerneiros, etc. Vejam como as formigas têm um gosto completamente diferente. Elas têm edifícios extraordinários, indestrutíveis para os séculos: os formigueiros.
As veneráveis formigas começaram com um formigueiro e terminarão também, provavelmente, com um formigueiro, o que muito honra sua constância e sua natureza positiva. Mas o homem é um ser inconstante e pouco honesto e, talvez, à semelhança do jogador de xadrez, goste apenas do processo de procurar atingir um objetivo, e não do objetivo em si. E quem sabe? Não se pode garantir, mas talvez todo o objetivo a que o homem se dirige na Terra se resuma a esse processo constante de buscar conquistar ou, em outras palavras, à própria vida, e não ao objetivo exatamente, o qual, evidentemente, não deve passar de dois e dois são quatro, ou seja, uma fórmula, e dois e dois são quatro já não é vida, senhores, mas o começo da morte. Pelo menos, o homem sempre teve um certo temor desse dois e dois são quatro, e eu até agora tenho. Suponhamos que o homem não faça outra coisa além de procurar esse dois e dois são quatro, atravessando oceanos, sacrificando a vida nessa busca, mas sou capaz de jurar que ele tem medo de encontrá-lo realmente. Porque ele sente que, assim que o encontrar, não haverá nada mais para procurar.
xxx
Pois chegamos ao ponto de quase achar que a verdadeira "vida viva" é um trabalho, quase um emprego, e todos nós no íntimo pensamos que nos livros é melhor. E por que às vezes ficamos irriquietos, inventamos caprichos? E o que pedimos? Nós mesmos não sabemos. Nós mesmos nos sentiremos pior se nossos pedidos delirantes forem atendidos. Pois bem, façam uma experiência, dêem-nos, por exemplo, mais independência, desamarrem as mãos de qualquer um de nós, ampliem nossa esfera de ação, relaxem a tutela e nós... eu lhes asseguro: nós imediatamente pediremos a volta da tutela. Sei que os senhores talvez fiquem bravos comigo, comecem a gritar e bater os pés: "Fale somente sobre si mesmo e sobre suas misérias no subsolo, mas não ouse dizer todos nós". Permitam-me, senhores, eu não estou me justificando quando digo todos. E no que me diz respeito, eu apenas levei às últimas consequências na minha vida aquilo que os senhores não tiveram coragem de levar nem à metade, e ainda por cima acharam que sua covardia era bom senso, consolando-se e enganando a sí próprios com isso. De modo que talvez eu esteja mais "vivo" que os senhores.
xxx
E de fato agora eu mesmo estou colocando uma questão ociosa: é melhor uma felicidade barata ou um sofrimento elevado? Então, o que é melhor?
xxx
Destruam meus desejos, apaguem meus ideais, mostrem-me alguma coisa melhor, e serei seu seguidor. Talvez os senhores digam que não vale a pena meter-se comigo; nesse caso, posso responder-lhes da mesma forma. Estamos argumentando seriamente, mas, se não quiserem conceder-me sua atenção, não hei de me humilhar. Tenho meu subsolo.
Fiódor Dostoiévski, Notas do Subsolo
As veneráveis formigas começaram com um formigueiro e terminarão também, provavelmente, com um formigueiro, o que muito honra sua constância e sua natureza positiva. Mas o homem é um ser inconstante e pouco honesto e, talvez, à semelhança do jogador de xadrez, goste apenas do processo de procurar atingir um objetivo, e não do objetivo em si. E quem sabe? Não se pode garantir, mas talvez todo o objetivo a que o homem se dirige na Terra se resuma a esse processo constante de buscar conquistar ou, em outras palavras, à própria vida, e não ao objetivo exatamente, o qual, evidentemente, não deve passar de dois e dois são quatro, ou seja, uma fórmula, e dois e dois são quatro já não é vida, senhores, mas o começo da morte. Pelo menos, o homem sempre teve um certo temor desse dois e dois são quatro, e eu até agora tenho. Suponhamos que o homem não faça outra coisa além de procurar esse dois e dois são quatro, atravessando oceanos, sacrificando a vida nessa busca, mas sou capaz de jurar que ele tem medo de encontrá-lo realmente. Porque ele sente que, assim que o encontrar, não haverá nada mais para procurar.
xxx
Pois chegamos ao ponto de quase achar que a verdadeira "vida viva" é um trabalho, quase um emprego, e todos nós no íntimo pensamos que nos livros é melhor. E por que às vezes ficamos irriquietos, inventamos caprichos? E o que pedimos? Nós mesmos não sabemos. Nós mesmos nos sentiremos pior se nossos pedidos delirantes forem atendidos. Pois bem, façam uma experiência, dêem-nos, por exemplo, mais independência, desamarrem as mãos de qualquer um de nós, ampliem nossa esfera de ação, relaxem a tutela e nós... eu lhes asseguro: nós imediatamente pediremos a volta da tutela. Sei que os senhores talvez fiquem bravos comigo, comecem a gritar e bater os pés: "Fale somente sobre si mesmo e sobre suas misérias no subsolo, mas não ouse dizer todos nós". Permitam-me, senhores, eu não estou me justificando quando digo todos. E no que me diz respeito, eu apenas levei às últimas consequências na minha vida aquilo que os senhores não tiveram coragem de levar nem à metade, e ainda por cima acharam que sua covardia era bom senso, consolando-se e enganando a sí próprios com isso. De modo que talvez eu esteja mais "vivo" que os senhores.
xxx
E de fato agora eu mesmo estou colocando uma questão ociosa: é melhor uma felicidade barata ou um sofrimento elevado? Então, o que é melhor?
xxx
Destruam meus desejos, apaguem meus ideais, mostrem-me alguma coisa melhor, e serei seu seguidor. Talvez os senhores digam que não vale a pena meter-se comigo; nesse caso, posso responder-lhes da mesma forma. Estamos argumentando seriamente, mas, se não quiserem conceder-me sua atenção, não hei de me humilhar. Tenho meu subsolo.
Fiódor Dostoiévski, Notas do Subsolo
Friday, January 07, 2011
someday in january
i don't wanna say anything, speechless i think
if i had to wake, then i'd drink
but you're right here, can you defy my stare
if i can keep my cool we'll have a swinging time
didn't take that long to know that things would get real weird
weird is in the making, that's my fear
truth be said, i really miss your smile
missing it a while, hell it's been years
when you're here, you're so beautiful my dear
if i can keep my cool we'll have a swinging time
but i'm wasting here, just failing my dear
failing here alone with stupid pride
i can't pretend i really don't care at all
really don't care at all right now, for a while
truth be said, i really miss your smile
i've been missing it a while, it's been years
hung on you for years, a bit too much i fear
hung on you for years, a bit too much i fear my dear
well i barely knew you, took so long to meet you
should've never kissed you, happy birthday
hoje é o meu aniversário.
obrigada, armchair martian.
if i had to wake, then i'd drink
but you're right here, can you defy my stare
if i can keep my cool we'll have a swinging time
didn't take that long to know that things would get real weird
weird is in the making, that's my fear
truth be said, i really miss your smile
missing it a while, hell it's been years
when you're here, you're so beautiful my dear
if i can keep my cool we'll have a swinging time
but i'm wasting here, just failing my dear
failing here alone with stupid pride
i can't pretend i really don't care at all
really don't care at all right now, for a while
truth be said, i really miss your smile
i've been missing it a while, it's been years
hung on you for years, a bit too much i fear
hung on you for years, a bit too much i fear my dear
well i barely knew you, took so long to meet you
should've never kissed you, happy birthday
hoje é o meu aniversário.
obrigada, armchair martian.
Thursday, January 06, 2011
que estranhos e doces pensamentos brotam nas solidões montanhosas!
Depois de todo esse tipo de farra, e ainda mais, cheguei ao ponto em que precisava de solidão e de desligar a máquina de "pensar" e "curtir" o que chamam de "viver"; tudo o que eu queria era deitar na grama e olhar as nuvens.
Uma escritura antiga também diz: - "A sabedoria só pode ser obtida sob o ponto de vista da solidão".
Jack Kerouac, Viajante Solitário
Uma escritura antiga também diz: - "A sabedoria só pode ser obtida sob o ponto de vista da solidão".
Jack Kerouac, Viajante Solitário
Monday, January 03, 2011
sensation
Nas tardes de verão, irei pelos vergéis,
Picado pelo trigo, a pisar a erva miúda:
Sonhador, sentirei um frescor sob os pés
E o vento há de banhar-me a cabeça desnuda.
Calado seguirei, não pensarei em nada:
Mas infinito amor dentro do peito abrigo,
E como um boêmio irei, bem longe pela estrada,
Feliz - qual se levasse uma mulher comigo.
Arthur Rimbaud, Março de 1870
Picado pelo trigo, a pisar a erva miúda:
Sonhador, sentirei um frescor sob os pés
E o vento há de banhar-me a cabeça desnuda.
Calado seguirei, não pensarei em nada:
Mas infinito amor dentro do peito abrigo,
E como um boêmio irei, bem longe pela estrada,
Feliz - qual se levasse uma mulher comigo.
Arthur Rimbaud, Março de 1870
Tuesday, December 28, 2010
myage
(...) Tanto mais notável, no entanto, foi que ainda assim tenha subestimado o meu problema em um ponto decisivo, pois aconselhou-me, em tom sério, a viajar um pouco. Nenhum conselho poderia ser menos sensato; as coisas na verdade são simples, todos podem compreendê-las ao chegar mais perto, mas não tão simples que a minha partida pudesse pôr tudo ou sequer o mais importante em ordem. Pelo contrário, antes de partir devo proteger-me ainda mais; se tenho mesmo de seguir um plano, então que seja o de manter o assunto dentro dos estreitos limites atuais que o mantêm separado do mundo externo, ou seja, ficar quieto onde estou e impedir as grandes mudanças visíveis que a situação exige, o que inclui não mencionar nada a ninguém, não porque tudo isso esconda algum segredo terrível, mas por tratar-se de um assunto irrelevante, pessoal e perfeitamente suportável que deve permanecer como tal.
Franz Kafka, Uma Pequena Mulher
Franz Kafka, Uma Pequena Mulher
Monday, December 06, 2010
entendo.
Tais solilóquios de rua ou de metrô ou de noites de insônia, no curso dos quais sua cabeça funcionava como um moinho de roda, impossível capturá-los quando se sentava diante de uma folha de papel em branco. E, no entanto, que extraordinárias confabulações ele tinha consigo mesmo! "Pôr o preto no branco! Escrever tudo!'' repetia em voz alta, mecanicamente, brandindo o punho fechado...
Henry Miller, Moloc
Toda noite eu escrevo mais um pedaço do meu livro. Mentalmente, é claro.
Henry Miller, Moloc
Toda noite eu escrevo mais um pedaço do meu livro. Mentalmente, é claro.
Friday, December 03, 2010
nina simone
I met him in a cell in New Orleans, I was
so down and out.
He looked at me to be the eyes of age,
as he spoke right out.
He talked of life, he talked of life.
He laughed, clicked heels instead.
Mister Bojangles
Mister Bojangles
Mister Bojangles,
dance!
so down and out.
He looked at me to be the eyes of age,
as he spoke right out.
He talked of life, he talked of life.
He laughed, clicked heels instead.
Mister Bojangles
Mister Bojangles
Mister Bojangles,
dance!
Wednesday, December 01, 2010
de volta a bunker hill
Na falta de algo novo, resolvi reler Sonhos de Bunker Hill, do John Fante. Engraçado como as coisas mudam. Em 2006 eu li e achei incrível. Hoje achei um pouco superficial, talvez até meio bobo. Não sei se porque a linguagem é muito acessível, ou porque é curtinho - terminei em dois dias - o fato é que a impressão foi outra. Jamas falarei mal, afinal, na época dei muitas risadas e admiro o autor. Nem só de drama ou rebeldia se faz a literatura. Resolvi eternizar aqui o final que me agradou (e ainda agrada) profundamente:
Me estirei na cama e dormi. Era crepúsculo quando acordei e acendi a luz. Me sentia melhor, não estava mais cansado. Fui até a máquina de escrever e sentei em frente. Meu pensamento era escrever uma frase, uma única frase perfeita. Se conseguisse escrever uma frase boa, conseguiria escrever duas, e se conseguisse escrever duas, conseguiria escrever três, e se conseguisse escrever três, conseguiria escrever para sempre. Mas, supondo que eu falhasse? Supondo que eu tivesse perdido todo o meu belo talento? Supondo que ele tivesse se consumido para sempre no fogo de Biff Newhouse ao esmurrar meu nariz ou com a morte de Helen Brownell? O que aconteceria comigo? Iria até Abe Marx e me tornaria ajudante de garçom de novo? Eu tinha dezessete dólares e medo de escrever. Sentei ereto em frente à máquina de escrever e soprei meus dedos. Por favor, Deus, por favor, Knut Hamsun, não me abandonem agora. Comecei a escrever e escrevi:
"É chegada a hora", disse o Leão-Marinho,
"De falar de muitas coisas:
De sapatos - e navios - e cera para lacre -
De repolhos - e reis -"
Olhei para aquilo e umedeci meus lábios. Não era meu, mas, com os diabos, um homem tem que começar por algum lugar.
Me estirei na cama e dormi. Era crepúsculo quando acordei e acendi a luz. Me sentia melhor, não estava mais cansado. Fui até a máquina de escrever e sentei em frente. Meu pensamento era escrever uma frase, uma única frase perfeita. Se conseguisse escrever uma frase boa, conseguiria escrever duas, e se conseguisse escrever duas, conseguiria escrever três, e se conseguisse escrever três, conseguiria escrever para sempre. Mas, supondo que eu falhasse? Supondo que eu tivesse perdido todo o meu belo talento? Supondo que ele tivesse se consumido para sempre no fogo de Biff Newhouse ao esmurrar meu nariz ou com a morte de Helen Brownell? O que aconteceria comigo? Iria até Abe Marx e me tornaria ajudante de garçom de novo? Eu tinha dezessete dólares e medo de escrever. Sentei ereto em frente à máquina de escrever e soprei meus dedos. Por favor, Deus, por favor, Knut Hamsun, não me abandonem agora. Comecei a escrever e escrevi:
"É chegada a hora", disse o Leão-Marinho,
"De falar de muitas coisas:
De sapatos - e navios - e cera para lacre -
De repolhos - e reis -"
Olhei para aquilo e umedeci meus lábios. Não era meu, mas, com os diabos, um homem tem que começar por algum lugar.
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