Wednesday, April 06, 2011

mortalhas & hesitações

Há uma árvore neste peito. Sinto-a espalhar-se o tempo inteiro. É o início da primavera. Vou contar a vocês quando as folhas vão começar a cair. Elas nunca irão começar a cair.
Neste peito há uma árvore que nunca pára de crescer.

Diários de Jack Kerouac

Thursday, March 24, 2011

...

You've said all that
Of course I've said all that.
What do you want?
I want to be on fire.
Why?
Because I'm inflammable. I
am serious.
You've said all that -
Of course I've said all that.
You don't know what you want,
And you say life is not enough.
Life is not enough.
Then what is enough?
To feel - or I die.
What will you feel?
Fires.
Then go ahead and burn.
But life is not on fire.
Then die.
Corporeally?
--
Yes.

Jack Kerouac

Tuesday, March 22, 2011

Segunda-Feira, 23 de Agosto de 1948

Bem, esses são meus sentimentos... Quanto a mim, a base de minha vida vai ser uma fazenda em algum lugar onde vou produzir parte de minha própria comida, e, se necessário, toda ela. Um dia não vou fazer coisa alguma além de sentar embaixo de uma árvore para ver minha lavoura crescer (depois do trabalho devido, claro) - e beber vinho caseiro, e escrever romances para edificar meu espírito, e brincar com meus filhos, e relaxar, e gozar a vida, e brincar, e assoar o nariz. Eu digo que eles não merecem nada além de desprezo por isso, e a próxima coisa que você sabe, claro, eles todos estarão marchando para alguma guerra aniquiladora que seus líderes corruptos começarão para manter as aparências (decência e honra) e "fechar as contas". Afinal, que aconteceria com o sistema precioso de gastos e despesas se nossas exportações encontrassem concorrência na Rússia. Caguei para os russos, caguei para os americanos, caguei para todo mundo. Vou viver a vida do meu jeito "preguiçoso coisa ruim", é isso que eu vou fazer. - Esta noite li Notas do Subterrâneo. Outra noite tinha lido No Coração das Trevas, você sabe. Agora vou ler muito. Também lendo Tom Sawyer Abroad. Comecei o último capítulo em um estilo relaxado, só para ver como vai funcionar. O único problema com meu texto é o excesso de palavras... mas, veja só, "pensamentos verdadeiros" abundam em Town and City, o que anula o mínimo dano do excesso de palavras. Agora vou afiar as coisas. Tenho outro romance em mente - On the Road* - sobre o qual estou sempre pensando: sobre dois caras que vão de carona para a Califórnia em busca de algo que na verdade eles não encontram, e se perdem na estrada, e fazem todo o caminho de volta com esperanças de algo mais. Além disso, estou descobrindo um novo princípio da literatura. Mais depois.

*primeira menção que Kerouac faz a On the Road em seus diários

Saturday, March 12, 2011

não se pode derrotar a sinceridade

Cheguei em casa pensando, "Agora vou contar a vocês o que eu penso sobre tudo". Pensei em "tomar uma decisão" de uma vez por todas, mas acabei percebendo que eu estou no caminho certo em nunca "tomar uma decisão". Ainda digo que minha vida é um esforço contínuo para alcançar a perfeição da dúvida - (e isso é mais religioso do que parece). Meu tipo de dúvida não é propositadamente desdenhosa. Também compreendi que apesar de, na verdade, eu ser um cara muito burro no meio de um monte de amigos inteligentes e brilhantes, eu mesmo tenho uma inteligência significativa. Se eles (sabem tudo), e eu, nada, ainda assim sei a relevância de tudo.

Os homens chegam ao rio do destino e não podem fazer outra coisa que não atravessá-lo.

Diários de Jack Kerouac, 1947-1954

Sunday, March 06, 2011

i will

Esta noite vou escrever muito bem e amar muito bem e estrangular essa loucura. Estou sentindo na carne essas malditas mudanças de intenção, as mãos ensangüentadas, e vou jogá-las aos ventos, assim. Eu desafio o que quer que venha a mim em horas como essa para me olhar nos olhos, eu desafio pela propriedade de meu ser: - talvez pela variedade. Oh, sim, sei que nunca deveria ter sido um escritor, não é da minha natureza, mas vamos ver isso no final. 2000 palavras esta noite.

Diários de Jack Kerouac, 1947-1954

Tuesday, February 15, 2011

trecho da oitava elegia

Quem nos inverteu assim, para que,
não importa o que façamos, estarmos na postura
de alguém que se vai? E como aquele, na última
colina, da qual vê - uma vez mais - o seu vale
por inteiro, volta-se, aguarda, hesita -:
assim vivemos nós, sempre em despedida

Rainer Maria Rilke, Elegias de Duíno

Monday, February 14, 2011

VIII

Só no espaço do louvor, o lamento
pode soar, ninfa da fonte do medo,
pairando sobre nosso tormento;
lágrima clara no mesmo rochedo

que suporta altares e portais.
Vê: sustenta nos ombros potentes
a certeza de que ela seria a mais
jovem dentre as irmãs no sentimento.

Júbilo professa, saudade confessa;
só a queixa ainda aprende. Sem pressa,
desvela, noites a fio, o mal atroz.

De repente, inexperiente e curva,
ergue a constelação de nossa voz
para os céus que seu sopro não turva.

Rainer Maria Rilke, Os Sonetos a Orfeu

Monday, January 24, 2011

graças a deus eu não sou deus!

Ó, devo estar maluco a ficar por aqui sentado sozinho no vazio & espiando & construindo pensamentos de amor!
Mas do que devo duvidar a não ser dos meus próprios olhos brilhantes, o que tenho a perder a não ser a vida que hoje é uma visão nesta tarde.

Allen Ginsberg, Iluminação de Sather Gate

Wednesday, January 19, 2011

Transcrição de Música de Órgão

Meus livros empilhados à minha frente para meu uso aguardando no espaço onde os coloquei, eles não desapareceram, o tempo deixou seus restos e qualidades para que eu os usasse - minhas palavras empilhadas, meus textos, meus manuscritos, meus amores.

Allen Ginsberg

a verdade é a verdade

Toda nossa vida parece não passar de um esforço frenético para fugir do que está constantemente ao nosso alcance. Isso que é o próprio avesso do miraculoso é apenas medo. O homem não possui outro inimigo real além deste que carrega dentro de si.

Ele toldava a questão real com uma cortina de fumaça produzida pelas palavras; lutava como um louco para cegar a própria visão do caminho que estava predestinado a seguir. O mundo tem sido ao mesmo tempo bondoso e cruel com ele, na medida da dualidade e do antagonismo que Balzac gerava. Aceitou-o como um dos maiores gênios humanos; e parmaneceu ignorante do objetivo que colimava. Ele queria fama, glória, reconhecimento: recebeu-os. Queria riqueza, bens, poder sobre os homens: obteve tudo isso. Queria criar um mundo próprio: criou-o. Mas a verdadeira vida que secretamente desejava foi-lhe negada - porque não se pode ter um pé num mundo e o outro em outro mundo. Ele não aprendera a lição da Renúncia: renunciara ao mundo, não para abdicar, mas para conquistar. Nos seus momentos de iluminação percebia a verdade, mas nunca foi capaz de viver de acordo com a sua visão. No caso dele, conforme permite Seraphita dizer com ofuscante clareza, foi realmente uma luz que mata o homem que não está preparado para recebê-la.

Henry Miller, A Sabedoria do Coração

Thursday, January 13, 2011

quem não arrisca...

Essa condição de sublime indiferença é um desenvolvimento lógico da vida egocêntrica. Vivi integralmente o problema social morrendo: o verdadeiro problema não é se dar bem com os vizinhos ou contribuir para o progresso do país, mas descobrir o próprio destino, procurar viver em harmonia com o ritmo bem centrado do cosmos. Ser capaz de usar a palavra cosmos com ousadia, usar a palavra alma, tratar de coisas "espirituais" - e esquivar-se de definições, álibis, provas, deveres. O paraíso está em toda a parte e toda estrada nos leva lá se seguirmos por ela tempo suficiente. Só pode avançar caminhando para trás e depois para o lado e depois subindo e depois descendo. Não há progresso: há um movimento, um deslocamento perpétuo que é circular, espiral, infindo. Cada homem tem o seu destino: o único imperativo é seguí-lo, aceitá-lo, a despeito de onde o leve.

Ninguém que se entregue voluntariamente à experiência pode se afogar no oceano da realidade. O pouco progresso que exista na vida não é fruto da adaptação mas da ousadia, da obediência ao impulso cego. "Nenhuma ousadia é fatal", disse René Crevel, uma frase que nunca hei de esquecer.

Henry Miller, A Sabedoria do Coração

dream is destiny

Pois o artista que existe no homem é o símbolo perene da união entre os eus conflitantes. É preciso dar um sentido à vida pela razão óbvia de que ela não tem sentido. Tem-se que criar algo que medeie de forma curativa e estimulante a vida e a morte porque a conclusão para a qual a vida aponta é a morte, e o homem, instintiva e persistentemente, fecha os olhos para este fato conclusivo. O sentido de mistério que existe no fundo de toda a arte é o amálgama de todos os terrores indizíveis que a realidade cruel da morte inspira. A morte então tem que ser vencida - ou disfarçada, ou transfigurada. Mas na tentativa de vencer a morte o homem é inevitavelmente obrigado a vencer a vida, pois as duas estão inextricavelmente ligadas. A vida caminha para morte, e negar uma é negar a outra. O sentido inexorável de destino que todo indivíduo criativo revela reside nessa consciência do objetivo, nessa aceitação do objetivo, nessa marcha para a fatalidade, que forma uma unidade com as forças inescrutáveis que o animam e o impelem.
Toda a história é o registro do memorável fracasso do homem em contrariar o destino.

Deve salvar o homem do medo da morte, para que seja capaz de morrer!

Henry Miller, A Sabedoria do Coração

Wednesday, January 12, 2011

wrong again*

Como pode ver, o infortúnio me ensinou a ser calculista. Uso a razão, nenhuma paixão. O senhor me obriga a lhe dizer que não o amo, que não devo, não posso nem quero lhe amar. Passei do momento da vida em que as mulheres cedem aos impulsos irrefletidos do coração e não mais saberia ser a amante que o senhor procura.

xxx

Junto a ela todas as outras mulheres empalidecem. É preciso ter passado pelo medo da perda de um amor tão vasto, tão brilhante, ou o haver perdido, para lhe dar todo o valor. Mas, se o tendo conhecido, um homem se vê privado dele para mergulhar em qualquer frio matrimônio; se a mulher com a qual esperou encontrar as mesmas felicidades que experimentou anteriormente lhe prova, por qualquer um desses atos amortalhados nas trevas da vida conjugal, que elas não renascerão para ele; se ele ainda conserva nos lábios o gosto de um amor celestial e se ele feriu de maneira mortal a sua verdadeira esposa em favor de uma ilusão social, então é preciso morrer ou adotar essa filosofia materialista, egoísta, fria, que horroriza as almas apaixonadas.

xxx

Sim, o homem, o coração, a alma que um dia conheci não mais existirão; eu os amortalharei na minha lembrança para mais uma vez desfrutar deles e viver feliz dessa bela vida passada, mas desconhecida de quem quer que seja que não nós dois.

Honoré de Balzac, A Mulher Abandonada

I'm so tired of thinking of it,
and I gain the wisdom to know what I need
And I've lost to much time thinking of that girl
Not let my anger tear me up the way I do, the way I do
I wake with head on in the morning
But seem to lose it somewhere along the way
And it don't feel right

Big Drill Car - Head On

*ALL

notas de uma bela obra.

O homem gosta de criar e de abrir caminhos, isto é indiscutível. Mas por que ele também ama com paixão a destruição e o caos? Digam-me, por favor! Entretanto, eu mesmo quero dizer duas palavras à parte sobre isso. Não poderia ser, talvez, que ele ame tanto a destruição e o caos (bem, é indiscutível que ele às vezes gosta muito, não há dúvida) porque ele mesmo, instintivamente, teme atingir o objetivo de concluir o edifício que estava construindo? Como os senhores podem saber? Talvez ele ame o edifício somente de longe e não o ame de perto; talvez ele ame apenas o ato de construí-lo, e não viver nele, abandonando-o depois aos animaux domestiques, como formigas, cerneiros, etc. Vejam como as formigas têm um gosto completamente diferente. Elas têm edifícios extraordinários, indestrutíveis para os séculos: os formigueiros.
As veneráveis formigas começaram com um formigueiro e terminarão também, provavelmente, com um formigueiro, o que muito honra sua constância e sua natureza positiva. Mas o homem é um ser inconstante e pouco honesto e, talvez, à semelhança do jogador de xadrez, goste apenas do processo de procurar atingir um objetivo, e não do objetivo em si. E quem sabe? Não se pode garantir, mas talvez todo o objetivo a que o homem se dirige na Terra se resuma a esse processo constante de buscar conquistar ou, em outras palavras, à própria vida, e não ao objetivo exatamente, o qual, evidentemente, não deve passar de dois e dois são quatro, ou seja, uma fórmula, e dois e dois são quatro já não é vida, senhores, mas o começo da morte. Pelo menos, o homem sempre teve um certo temor desse dois e dois são quatro, e eu até agora tenho. Suponhamos que o homem não faça outra coisa além de procurar esse dois e dois são quatro, atravessando oceanos, sacrificando a vida nessa busca, mas sou capaz de jurar que ele tem medo de encontrá-lo realmente. Porque ele sente que, assim que o encontrar, não haverá nada mais para procurar.

xxx

Pois chegamos ao ponto de quase achar que a verdadeira "vida viva" é um trabalho, quase um emprego, e todos nós no íntimo pensamos que nos livros é melhor. E por que às vezes ficamos irriquietos, inventamos caprichos? E o que pedimos? Nós mesmos não sabemos. Nós mesmos nos sentiremos pior se nossos pedidos delirantes forem atendidos. Pois bem, façam uma experiência, dêem-nos, por exemplo, mais independência, desamarrem as mãos de qualquer um de nós, ampliem nossa esfera de ação, relaxem a tutela e nós... eu lhes asseguro: nós imediatamente pediremos a volta da tutela. Sei que os senhores talvez fiquem bravos comigo, comecem a gritar e bater os pés: "Fale somente sobre si mesmo e sobre suas misérias no subsolo, mas não ouse dizer todos nós". Permitam-me, senhores, eu não estou me justificando quando digo todos. E no que me diz respeito, eu apenas levei às últimas consequências na minha vida aquilo que os senhores não tiveram coragem de levar nem à metade, e ainda por cima acharam que sua covardia era bom senso, consolando-se e enganando a sí próprios com isso. De modo que talvez eu esteja mais "vivo" que os senhores.

xxx

E de fato agora eu mesmo estou colocando uma questão ociosa: é melhor uma felicidade barata ou um sofrimento elevado? Então, o que é melhor?

xxx

Destruam meus desejos, apaguem meus ideais, mostrem-me alguma coisa melhor, e serei seu seguidor. Talvez os senhores digam que não vale a pena meter-se comigo; nesse caso, posso responder-lhes da mesma forma. Estamos argumentando seriamente, mas, se não quiserem conceder-me sua atenção, não hei de me humilhar. Tenho meu subsolo.

Fiódor Dostoiévski, Notas do Subsolo

Friday, January 07, 2011

someday in january

i don't wanna say anything, speechless i think
if i had to wake, then i'd drink
but you're right here, can you defy my stare
if i can keep my cool we'll have a swinging time
didn't take that long to know that things would get real weird
weird is in the making, that's my fear
truth be said, i really miss your smile
missing it a while, hell it's been years

when you're here, you're so beautiful my dear
if i can keep my cool we'll have a swinging time
but i'm wasting here, just failing my dear
failing here alone with stupid pride

i can't pretend i really don't care at all
really don't care at all right now, for a while
truth be said, i really miss your smile
i've been missing it a while, it's been years
hung on you for years, a bit too much i fear
hung on you for years, a bit too much i fear my dear
well i barely knew you, took so long to meet you
should've never kissed you, happy birthday

hoje é o meu aniversário.
obrigada, armchair martian.

Thursday, January 06, 2011

que estranhos e doces pensamentos brotam nas solidões montanhosas!

Depois de todo esse tipo de farra, e ainda mais, cheguei ao ponto em que precisava de solidão e de desligar a máquina de "pensar" e "curtir" o que chamam de "viver"; tudo o que eu queria era deitar na grama e olhar as nuvens.
Uma escritura antiga também diz: - "A sabedoria só pode ser obtida sob o ponto de vista da solidão".

Jack Kerouac, Viajante Solitário

Monday, January 03, 2011

sensation

Nas tardes de verão, irei pelos vergéis,
Picado pelo trigo, a pisar a erva miúda:
Sonhador, sentirei um frescor sob os pés
E o vento há de banhar-me a cabeça desnuda.

Calado seguirei, não pensarei em nada:
Mas infinito amor dentro do peito abrigo,
E como um boêmio irei, bem longe pela estrada,
Feliz - qual se levasse uma mulher comigo.

Arthur Rimbaud, Março de 1870

Tuesday, December 28, 2010

myage

(...) Tanto mais notável, no entanto, foi que ainda assim tenha subestimado o meu problema em um ponto decisivo, pois aconselhou-me, em tom sério, a viajar um pouco. Nenhum conselho poderia ser menos sensato; as coisas na verdade são simples, todos podem compreendê-las ao chegar mais perto, mas não tão simples que a minha partida pudesse pôr tudo ou sequer o mais importante em ordem. Pelo contrário, antes de partir devo proteger-me ainda mais; se tenho mesmo de seguir um plano, então que seja o de manter o assunto dentro dos estreitos limites atuais que o mantêm separado do mundo externo, ou seja, ficar quieto onde estou e impedir as grandes mudanças visíveis que a situação exige, o que inclui não mencionar nada a ninguém, não porque tudo isso esconda algum segredo terrível, mas por tratar-se de um assunto irrelevante, pessoal e perfeitamente suportável que deve permanecer como tal.

Franz Kafka, Uma Pequena Mulher

Monday, December 06, 2010

entendo.

Tais solilóquios de rua ou de metrô ou de noites de insônia, no curso dos quais sua cabeça funcionava como um moinho de roda, impossível capturá-los quando se sentava diante de uma folha de papel em branco. E, no entanto, que extraordinárias confabulações ele tinha consigo mesmo! "Pôr o preto no branco! Escrever tudo!'' repetia em voz alta, mecanicamente, brandindo o punho fechado...

Henry Miller, Moloc

Toda noite eu escrevo mais um pedaço do meu livro. Mentalmente, é claro.

Friday, December 03, 2010

nina simone

I met him in a cell in New Orleans, I was
so down and out.
He looked at me to be the eyes of age,
as he spoke right out.
He talked of life, he talked of life.
He laughed, clicked heels instead.

Mister Bojangles
Mister Bojangles
Mister Bojangles,
dance!

Wednesday, December 01, 2010

de volta a bunker hill

Na falta de algo novo, resolvi reler Sonhos de Bunker Hill, do John Fante. Engraçado como as coisas mudam. Em 2006 eu li e achei incrível. Hoje achei um pouco superficial, talvez até meio bobo. Não sei se porque a linguagem é muito acessível, ou porque é curtinho - terminei em dois dias - o fato é que a impressão foi outra. Jamas falarei mal, afinal, na época dei muitas risadas e admiro o autor. Nem só de drama ou rebeldia se faz a literatura. Resolvi eternizar aqui o final que me agradou (e ainda agrada) profundamente:

Me estirei na cama e dormi. Era crepúsculo quando acordei e acendi a luz. Me sentia melhor, não estava mais cansado. Fui até a máquina de escrever e sentei em frente. Meu pensamento era escrever uma frase, uma única frase perfeita. Se conseguisse escrever uma frase boa, conseguiria escrever duas, e se conseguisse escrever duas, conseguiria escrever três, e se conseguisse escrever três, conseguiria escrever para sempre. Mas, supondo que eu falhasse? Supondo que eu tivesse perdido todo o meu belo talento? Supondo que ele tivesse se consumido para sempre no fogo de Biff Newhouse ao esmurrar meu nariz ou com a morte de Helen Brownell? O que aconteceria comigo? Iria até Abe Marx e me tornaria ajudante de garçom de novo? Eu tinha dezessete dólares e medo de escrever. Sentei ereto em frente à máquina de escrever e soprei meus dedos. Por favor, Deus, por favor, Knut Hamsun, não me abandonem agora. Comecei a escrever e escrevi:

"É chegada a hora", disse o Leão-Marinho,
"De falar de muitas coisas:
De sapatos - e navios - e cera para lacre -
De repolhos - e reis -"

Olhei para aquilo e umedeci meus lábios. Não era meu, mas, com os diabos, um homem tem que começar por algum lugar.

Tuesday, November 30, 2010

fragmentos

O que mais tarde tantas vezes senti, naquele tempo eu já adivinhava: que não se tem o direito de abrir um livro sem assumir o compromisso de ler todos. A cada frase começamos o mundo. Antes dos livros ele fora algo intacto, e talvez depois deles voltasse a ficar inteiro.

xxx

Descobrimos que não sabemos nosso papel, procuramos um espelho, queremos tirar a pintura e a falsidade, e sermos verdadeiros. Mas em algum lugar um pedaço de disfarce que tínhamos esquecido ainda se gruda em nós. Um traço de exagero permanece em nossas sobrancelhas, não percebemos que os cantos de nossa boca estão repuxados. E assim andamos por aí, um escárnio, metade de nós mesmos: nem reais nem atores.

Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge

...

Acho que eu devia começar a fazer algo, a trabalhar, agora que estou aprendendo a ver. Tenho 28 anos, e praticamente não aconteceu nada. Vamos recordar: escrevi um ensaio sobre Carpaccio, que é ruim, um drama chamado O Casamento, que pretende provar algo falso com meios ambíguos, e versos. Ah, mas versos significam muito pouco se escritos cedo. Devia-se esperar, reunir sentido e doçura numa vida inteira, se possível bem longa, e depois, bem no fim, talvez conseguissem dez versos bons. Pois versos não são, como as pessoas imaginam, sentimentos (a esses, temos cedo demais) - são experiências.

É ridículo. Estou aqui sentado em meu quartinho, eu, Brigge, que completei 28 anos, e de quem ninguém sabe nada. Estou aqui sentado, e não sou nada. E, contudo, esse nada começa a pensar, e num quinto andar, numa cinzenta tarde parisiense, pensa estes pensamentos:
É possível que ainda não tenhamos visto, reconhecido e dito nada realmente verdadeiro e importante? É possível que tenhamos tido milênios para contemplar, refletir e anotar, e deixássemos esses milênios passarem como uma hora de recreio na escola, em que se come pão com manteiga e uma maçã?
Sim, é possível.
É possível que, apesar do progresso, da cultura, da religião e da sabedoria universais, tenhamos permanecido na superfície da vida? E que mesmo essa superfície - que em si já seria alguma coisa - esteja recoberta de um tecido tão incrivelmente monótono que nos pareça móveis de sala numas férias de verão?
Sim, é possível.
É possível que toda a história da humanidade tenha sido um mal-entendido? Que o passado seja falso porque sempre falamos em multidões, como numa reunião de muita gente, em vez de falarmos no único, em torno do qual todos se agrupavam porque ele era estrangeiro e morria?
Sim, é possível.
É possível termos acreditado na necessidade de recuperarmos fatos acontecidos antes de sermos nascidos? É possível que tenhamos de recordar a cada indivíduo que ele nasce dos antepassados, que portanto contém em si todo esse passado, e que nada tem a aprender com outros homens que pretendem possuir um saber melhor ou diferente?
Sim, é possível.
É possível que todos esses homens conheçam bem um passado que nunca existiu? Que para eles todas as realidades nada sejam; e sua vida transcorra desligada de tudo, como um relógio num quarto vazio?
Sim, é possível.
É possível que nada se saiba de donzelas que, ainda assim, vivem? É possível que se diga 'as mulheres', 'as crianças', 'os rapazes', sem pressentir (apesar de toda a cultura, sem pressentir) que há muito essas palavras não têm mais plural, mas apenas incontáveis singulares?
Sim, é possível.
É possível existirem pessoas que dizem 'Deus' e pensem que isso é um ser que lhes é comum? Vejam esses dois meninos de escola: um compra uma faca, o vizinho compra outra idêntica no mesmo dia. Depois de uma semana mostram-se mutuamente as facas, e acontece que só remotamente ainda se parecem - tão diversamente se desenvolvem em mãos diferentes. (Sim, diz a mãe de um deles, por que vocês precisam gastar tudo logo?) E então: é possível acreditar que se possa ter um Deus sem usá-lo?
Sim, é possível.
Mas se tudo é possível, ao menos vagamente possível, então, por tudo que há de sagrado no mundo, algo tem de acontecer. O primeiro a ter esse pensamento inquietante precisa começar a fazer algo que foi omitido; mesmo se for apenas um sujeito qualquer, talvez nem mesmo o mais indicado: simplesmente, não há outro melhor. Esse jovem estrangeiro insignificante, esse Brigge, terá de sentar-se num quinto andar e escrever, dia e noite: sim, terá de escrever, e este será o fim.

Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge

Sunday, November 28, 2010

saturday night*

Diálogo via SMS durante a madrugada:

C: Encontrei dois amigos teus na noite.
F: Quem? Obs.: Não tenho amigos.
C: xxxx e xxxxx
F: Teu excesso de vida noturna me deixa abismada.
C: Só saí Quinta e Sábado.
F: Em duas semanas tu saiu mais do que eu em 11 meses.
C: Eu: em busca da foda perfeita. Tu: quer casar. Simples como a vida é.
F: Disse tudo.
C: Digo pouco, mas falo muito. Buk me ensinou sobre a vida e as palavras.
F: Buk: Colega. Miller: Guru. Sem mais.
C: Pode ser, mas Miller teria outros conceitos e modos nos dias de hoje.
F: Não polemiza. Adeus.
C: Isso, deixa eu ler e dormir.
F: Já vai tarde.

*Misfits