Meus livros empilhados à minha frente para meu uso aguardando no espaço onde os coloquei, eles não desapareceram, o tempo deixou seus restos e qualidades para que eu os usasse - minhas palavras empilhadas, meus textos, meus manuscritos, meus amores.
Allen Ginsberg
Wednesday, January 19, 2011
a verdade é a verdade
Toda nossa vida parece não passar de um esforço frenético para fugir do que está constantemente ao nosso alcance. Isso que é o próprio avesso do miraculoso é apenas medo. O homem não possui outro inimigo real além deste que carrega dentro de si.
Ele toldava a questão real com uma cortina de fumaça produzida pelas palavras; lutava como um louco para cegar a própria visão do caminho que estava predestinado a seguir. O mundo tem sido ao mesmo tempo bondoso e cruel com ele, na medida da dualidade e do antagonismo que Balzac gerava. Aceitou-o como um dos maiores gênios humanos; e parmaneceu ignorante do objetivo que colimava. Ele queria fama, glória, reconhecimento: recebeu-os. Queria riqueza, bens, poder sobre os homens: obteve tudo isso. Queria criar um mundo próprio: criou-o. Mas a verdadeira vida que secretamente desejava foi-lhe negada - porque não se pode ter um pé num mundo e o outro em outro mundo. Ele não aprendera a lição da Renúncia: renunciara ao mundo, não para abdicar, mas para conquistar. Nos seus momentos de iluminação percebia a verdade, mas nunca foi capaz de viver de acordo com a sua visão. No caso dele, conforme permite Seraphita dizer com ofuscante clareza, foi realmente uma luz que mata o homem que não está preparado para recebê-la.
Henry Miller, A Sabedoria do Coração
Ele toldava a questão real com uma cortina de fumaça produzida pelas palavras; lutava como um louco para cegar a própria visão do caminho que estava predestinado a seguir. O mundo tem sido ao mesmo tempo bondoso e cruel com ele, na medida da dualidade e do antagonismo que Balzac gerava. Aceitou-o como um dos maiores gênios humanos; e parmaneceu ignorante do objetivo que colimava. Ele queria fama, glória, reconhecimento: recebeu-os. Queria riqueza, bens, poder sobre os homens: obteve tudo isso. Queria criar um mundo próprio: criou-o. Mas a verdadeira vida que secretamente desejava foi-lhe negada - porque não se pode ter um pé num mundo e o outro em outro mundo. Ele não aprendera a lição da Renúncia: renunciara ao mundo, não para abdicar, mas para conquistar. Nos seus momentos de iluminação percebia a verdade, mas nunca foi capaz de viver de acordo com a sua visão. No caso dele, conforme permite Seraphita dizer com ofuscante clareza, foi realmente uma luz que mata o homem que não está preparado para recebê-la.
Henry Miller, A Sabedoria do Coração
Thursday, January 13, 2011
quem não arrisca...
Essa condição de sublime indiferença é um desenvolvimento lógico da vida egocêntrica. Vivi integralmente o problema social morrendo: o verdadeiro problema não é se dar bem com os vizinhos ou contribuir para o progresso do país, mas descobrir o próprio destino, procurar viver em harmonia com o ritmo bem centrado do cosmos. Ser capaz de usar a palavra cosmos com ousadia, usar a palavra alma, tratar de coisas "espirituais" - e esquivar-se de definições, álibis, provas, deveres. O paraíso está em toda a parte e toda estrada nos leva lá se seguirmos por ela tempo suficiente. Só pode avançar caminhando para trás e depois para o lado e depois subindo e depois descendo. Não há progresso: há um movimento, um deslocamento perpétuo que é circular, espiral, infindo. Cada homem tem o seu destino: o único imperativo é seguí-lo, aceitá-lo, a despeito de onde o leve.
Ninguém que se entregue voluntariamente à experiência pode se afogar no oceano da realidade. O pouco progresso que exista na vida não é fruto da adaptação mas da ousadia, da obediência ao impulso cego. "Nenhuma ousadia é fatal", disse René Crevel, uma frase que nunca hei de esquecer.
Henry Miller, A Sabedoria do Coração
Ninguém que se entregue voluntariamente à experiência pode se afogar no oceano da realidade. O pouco progresso que exista na vida não é fruto da adaptação mas da ousadia, da obediência ao impulso cego. "Nenhuma ousadia é fatal", disse René Crevel, uma frase que nunca hei de esquecer.
Henry Miller, A Sabedoria do Coração
dream is destiny
Pois o artista que existe no homem é o símbolo perene da união entre os eus conflitantes. É preciso dar um sentido à vida pela razão óbvia de que ela não tem sentido. Tem-se que criar algo que medeie de forma curativa e estimulante a vida e a morte porque a conclusão para a qual a vida aponta é a morte, e o homem, instintiva e persistentemente, fecha os olhos para este fato conclusivo. O sentido de mistério que existe no fundo de toda a arte é o amálgama de todos os terrores indizíveis que a realidade cruel da morte inspira. A morte então tem que ser vencida - ou disfarçada, ou transfigurada. Mas na tentativa de vencer a morte o homem é inevitavelmente obrigado a vencer a vida, pois as duas estão inextricavelmente ligadas. A vida caminha para morte, e negar uma é negar a outra. O sentido inexorável de destino que todo indivíduo criativo revela reside nessa consciência do objetivo, nessa aceitação do objetivo, nessa marcha para a fatalidade, que forma uma unidade com as forças inescrutáveis que o animam e o impelem.
Toda a história é o registro do memorável fracasso do homem em contrariar o destino.
Deve salvar o homem do medo da morte, para que seja capaz de morrer!
Henry Miller, A Sabedoria do Coração
Toda a história é o registro do memorável fracasso do homem em contrariar o destino.
Deve salvar o homem do medo da morte, para que seja capaz de morrer!
Henry Miller, A Sabedoria do Coração
Wednesday, January 12, 2011
wrong again*
Como pode ver, o infortúnio me ensinou a ser calculista. Uso a razão, nenhuma paixão. O senhor me obriga a lhe dizer que não o amo, que não devo, não posso nem quero lhe amar. Passei do momento da vida em que as mulheres cedem aos impulsos irrefletidos do coração e não mais saberia ser a amante que o senhor procura.
xxx
Junto a ela todas as outras mulheres empalidecem. É preciso ter passado pelo medo da perda de um amor tão vasto, tão brilhante, ou o haver perdido, para lhe dar todo o valor. Mas, se o tendo conhecido, um homem se vê privado dele para mergulhar em qualquer frio matrimônio; se a mulher com a qual esperou encontrar as mesmas felicidades que experimentou anteriormente lhe prova, por qualquer um desses atos amortalhados nas trevas da vida conjugal, que elas não renascerão para ele; se ele ainda conserva nos lábios o gosto de um amor celestial e se ele feriu de maneira mortal a sua verdadeira esposa em favor de uma ilusão social, então é preciso morrer ou adotar essa filosofia materialista, egoísta, fria, que horroriza as almas apaixonadas.
xxx
Sim, o homem, o coração, a alma que um dia conheci não mais existirão; eu os amortalharei na minha lembrança para mais uma vez desfrutar deles e viver feliz dessa bela vida passada, mas desconhecida de quem quer que seja que não nós dois.
Honoré de Balzac, A Mulher Abandonada
I'm so tired of thinking of it,
and I gain the wisdom to know what I need
And I've lost to much time thinking of that girl
Not let my anger tear me up the way I do, the way I do
I wake with head on in the morning
But seem to lose it somewhere along the way
And it don't feel right
Big Drill Car - Head On
*ALL
xxx
Junto a ela todas as outras mulheres empalidecem. É preciso ter passado pelo medo da perda de um amor tão vasto, tão brilhante, ou o haver perdido, para lhe dar todo o valor. Mas, se o tendo conhecido, um homem se vê privado dele para mergulhar em qualquer frio matrimônio; se a mulher com a qual esperou encontrar as mesmas felicidades que experimentou anteriormente lhe prova, por qualquer um desses atos amortalhados nas trevas da vida conjugal, que elas não renascerão para ele; se ele ainda conserva nos lábios o gosto de um amor celestial e se ele feriu de maneira mortal a sua verdadeira esposa em favor de uma ilusão social, então é preciso morrer ou adotar essa filosofia materialista, egoísta, fria, que horroriza as almas apaixonadas.
xxx
Sim, o homem, o coração, a alma que um dia conheci não mais existirão; eu os amortalharei na minha lembrança para mais uma vez desfrutar deles e viver feliz dessa bela vida passada, mas desconhecida de quem quer que seja que não nós dois.
Honoré de Balzac, A Mulher Abandonada
I'm so tired of thinking of it,
and I gain the wisdom to know what I need
And I've lost to much time thinking of that girl
Not let my anger tear me up the way I do, the way I do
I wake with head on in the morning
But seem to lose it somewhere along the way
And it don't feel right
Big Drill Car - Head On
*ALL
notas de uma bela obra.
O homem gosta de criar e de abrir caminhos, isto é indiscutível. Mas por que ele também ama com paixão a destruição e o caos? Digam-me, por favor! Entretanto, eu mesmo quero dizer duas palavras à parte sobre isso. Não poderia ser, talvez, que ele ame tanto a destruição e o caos (bem, é indiscutível que ele às vezes gosta muito, não há dúvida) porque ele mesmo, instintivamente, teme atingir o objetivo de concluir o edifício que estava construindo? Como os senhores podem saber? Talvez ele ame o edifício somente de longe e não o ame de perto; talvez ele ame apenas o ato de construí-lo, e não viver nele, abandonando-o depois aos animaux domestiques, como formigas, cerneiros, etc. Vejam como as formigas têm um gosto completamente diferente. Elas têm edifícios extraordinários, indestrutíveis para os séculos: os formigueiros.
As veneráveis formigas começaram com um formigueiro e terminarão também, provavelmente, com um formigueiro, o que muito honra sua constância e sua natureza positiva. Mas o homem é um ser inconstante e pouco honesto e, talvez, à semelhança do jogador de xadrez, goste apenas do processo de procurar atingir um objetivo, e não do objetivo em si. E quem sabe? Não se pode garantir, mas talvez todo o objetivo a que o homem se dirige na Terra se resuma a esse processo constante de buscar conquistar ou, em outras palavras, à própria vida, e não ao objetivo exatamente, o qual, evidentemente, não deve passar de dois e dois são quatro, ou seja, uma fórmula, e dois e dois são quatro já não é vida, senhores, mas o começo da morte. Pelo menos, o homem sempre teve um certo temor desse dois e dois são quatro, e eu até agora tenho. Suponhamos que o homem não faça outra coisa além de procurar esse dois e dois são quatro, atravessando oceanos, sacrificando a vida nessa busca, mas sou capaz de jurar que ele tem medo de encontrá-lo realmente. Porque ele sente que, assim que o encontrar, não haverá nada mais para procurar.
xxx
Pois chegamos ao ponto de quase achar que a verdadeira "vida viva" é um trabalho, quase um emprego, e todos nós no íntimo pensamos que nos livros é melhor. E por que às vezes ficamos irriquietos, inventamos caprichos? E o que pedimos? Nós mesmos não sabemos. Nós mesmos nos sentiremos pior se nossos pedidos delirantes forem atendidos. Pois bem, façam uma experiência, dêem-nos, por exemplo, mais independência, desamarrem as mãos de qualquer um de nós, ampliem nossa esfera de ação, relaxem a tutela e nós... eu lhes asseguro: nós imediatamente pediremos a volta da tutela. Sei que os senhores talvez fiquem bravos comigo, comecem a gritar e bater os pés: "Fale somente sobre si mesmo e sobre suas misérias no subsolo, mas não ouse dizer todos nós". Permitam-me, senhores, eu não estou me justificando quando digo todos. E no que me diz respeito, eu apenas levei às últimas consequências na minha vida aquilo que os senhores não tiveram coragem de levar nem à metade, e ainda por cima acharam que sua covardia era bom senso, consolando-se e enganando a sí próprios com isso. De modo que talvez eu esteja mais "vivo" que os senhores.
xxx
E de fato agora eu mesmo estou colocando uma questão ociosa: é melhor uma felicidade barata ou um sofrimento elevado? Então, o que é melhor?
xxx
Destruam meus desejos, apaguem meus ideais, mostrem-me alguma coisa melhor, e serei seu seguidor. Talvez os senhores digam que não vale a pena meter-se comigo; nesse caso, posso responder-lhes da mesma forma. Estamos argumentando seriamente, mas, se não quiserem conceder-me sua atenção, não hei de me humilhar. Tenho meu subsolo.
Fiódor Dostoiévski, Notas do Subsolo
As veneráveis formigas começaram com um formigueiro e terminarão também, provavelmente, com um formigueiro, o que muito honra sua constância e sua natureza positiva. Mas o homem é um ser inconstante e pouco honesto e, talvez, à semelhança do jogador de xadrez, goste apenas do processo de procurar atingir um objetivo, e não do objetivo em si. E quem sabe? Não se pode garantir, mas talvez todo o objetivo a que o homem se dirige na Terra se resuma a esse processo constante de buscar conquistar ou, em outras palavras, à própria vida, e não ao objetivo exatamente, o qual, evidentemente, não deve passar de dois e dois são quatro, ou seja, uma fórmula, e dois e dois são quatro já não é vida, senhores, mas o começo da morte. Pelo menos, o homem sempre teve um certo temor desse dois e dois são quatro, e eu até agora tenho. Suponhamos que o homem não faça outra coisa além de procurar esse dois e dois são quatro, atravessando oceanos, sacrificando a vida nessa busca, mas sou capaz de jurar que ele tem medo de encontrá-lo realmente. Porque ele sente que, assim que o encontrar, não haverá nada mais para procurar.
xxx
Pois chegamos ao ponto de quase achar que a verdadeira "vida viva" é um trabalho, quase um emprego, e todos nós no íntimo pensamos que nos livros é melhor. E por que às vezes ficamos irriquietos, inventamos caprichos? E o que pedimos? Nós mesmos não sabemos. Nós mesmos nos sentiremos pior se nossos pedidos delirantes forem atendidos. Pois bem, façam uma experiência, dêem-nos, por exemplo, mais independência, desamarrem as mãos de qualquer um de nós, ampliem nossa esfera de ação, relaxem a tutela e nós... eu lhes asseguro: nós imediatamente pediremos a volta da tutela. Sei que os senhores talvez fiquem bravos comigo, comecem a gritar e bater os pés: "Fale somente sobre si mesmo e sobre suas misérias no subsolo, mas não ouse dizer todos nós". Permitam-me, senhores, eu não estou me justificando quando digo todos. E no que me diz respeito, eu apenas levei às últimas consequências na minha vida aquilo que os senhores não tiveram coragem de levar nem à metade, e ainda por cima acharam que sua covardia era bom senso, consolando-se e enganando a sí próprios com isso. De modo que talvez eu esteja mais "vivo" que os senhores.
xxx
E de fato agora eu mesmo estou colocando uma questão ociosa: é melhor uma felicidade barata ou um sofrimento elevado? Então, o que é melhor?
xxx
Destruam meus desejos, apaguem meus ideais, mostrem-me alguma coisa melhor, e serei seu seguidor. Talvez os senhores digam que não vale a pena meter-se comigo; nesse caso, posso responder-lhes da mesma forma. Estamos argumentando seriamente, mas, se não quiserem conceder-me sua atenção, não hei de me humilhar. Tenho meu subsolo.
Fiódor Dostoiévski, Notas do Subsolo
Friday, January 07, 2011
someday in january
i don't wanna say anything, speechless i think
if i had to wake, then i'd drink
but you're right here, can you defy my stare
if i can keep my cool we'll have a swinging time
didn't take that long to know that things would get real weird
weird is in the making, that's my fear
truth be said, i really miss your smile
missing it a while, hell it's been years
when you're here, you're so beautiful my dear
if i can keep my cool we'll have a swinging time
but i'm wasting here, just failing my dear
failing here alone with stupid pride
i can't pretend i really don't care at all
really don't care at all right now, for a while
truth be said, i really miss your smile
i've been missing it a while, it's been years
hung on you for years, a bit too much i fear
hung on you for years, a bit too much i fear my dear
well i barely knew you, took so long to meet you
should've never kissed you, happy birthday
hoje é o meu aniversário.
obrigada, armchair martian.
if i had to wake, then i'd drink
but you're right here, can you defy my stare
if i can keep my cool we'll have a swinging time
didn't take that long to know that things would get real weird
weird is in the making, that's my fear
truth be said, i really miss your smile
missing it a while, hell it's been years
when you're here, you're so beautiful my dear
if i can keep my cool we'll have a swinging time
but i'm wasting here, just failing my dear
failing here alone with stupid pride
i can't pretend i really don't care at all
really don't care at all right now, for a while
truth be said, i really miss your smile
i've been missing it a while, it's been years
hung on you for years, a bit too much i fear
hung on you for years, a bit too much i fear my dear
well i barely knew you, took so long to meet you
should've never kissed you, happy birthday
hoje é o meu aniversário.
obrigada, armchair martian.
Thursday, January 06, 2011
que estranhos e doces pensamentos brotam nas solidões montanhosas!
Depois de todo esse tipo de farra, e ainda mais, cheguei ao ponto em que precisava de solidão e de desligar a máquina de "pensar" e "curtir" o que chamam de "viver"; tudo o que eu queria era deitar na grama e olhar as nuvens.
Uma escritura antiga também diz: - "A sabedoria só pode ser obtida sob o ponto de vista da solidão".
Jack Kerouac, Viajante Solitário
Uma escritura antiga também diz: - "A sabedoria só pode ser obtida sob o ponto de vista da solidão".
Jack Kerouac, Viajante Solitário
Monday, January 03, 2011
sensation
Nas tardes de verão, irei pelos vergéis,
Picado pelo trigo, a pisar a erva miúda:
Sonhador, sentirei um frescor sob os pés
E o vento há de banhar-me a cabeça desnuda.
Calado seguirei, não pensarei em nada:
Mas infinito amor dentro do peito abrigo,
E como um boêmio irei, bem longe pela estrada,
Feliz - qual se levasse uma mulher comigo.
Arthur Rimbaud, Março de 1870
Picado pelo trigo, a pisar a erva miúda:
Sonhador, sentirei um frescor sob os pés
E o vento há de banhar-me a cabeça desnuda.
Calado seguirei, não pensarei em nada:
Mas infinito amor dentro do peito abrigo,
E como um boêmio irei, bem longe pela estrada,
Feliz - qual se levasse uma mulher comigo.
Arthur Rimbaud, Março de 1870
Tuesday, December 28, 2010
myage
(...) Tanto mais notável, no entanto, foi que ainda assim tenha subestimado o meu problema em um ponto decisivo, pois aconselhou-me, em tom sério, a viajar um pouco. Nenhum conselho poderia ser menos sensato; as coisas na verdade são simples, todos podem compreendê-las ao chegar mais perto, mas não tão simples que a minha partida pudesse pôr tudo ou sequer o mais importante em ordem. Pelo contrário, antes de partir devo proteger-me ainda mais; se tenho mesmo de seguir um plano, então que seja o de manter o assunto dentro dos estreitos limites atuais que o mantêm separado do mundo externo, ou seja, ficar quieto onde estou e impedir as grandes mudanças visíveis que a situação exige, o que inclui não mencionar nada a ninguém, não porque tudo isso esconda algum segredo terrível, mas por tratar-se de um assunto irrelevante, pessoal e perfeitamente suportável que deve permanecer como tal.
Franz Kafka, Uma Pequena Mulher
Franz Kafka, Uma Pequena Mulher
Monday, December 06, 2010
entendo.
Tais solilóquios de rua ou de metrô ou de noites de insônia, no curso dos quais sua cabeça funcionava como um moinho de roda, impossível capturá-los quando se sentava diante de uma folha de papel em branco. E, no entanto, que extraordinárias confabulações ele tinha consigo mesmo! "Pôr o preto no branco! Escrever tudo!'' repetia em voz alta, mecanicamente, brandindo o punho fechado...
Henry Miller, Moloc
Toda noite eu escrevo mais um pedaço do meu livro. Mentalmente, é claro.
Henry Miller, Moloc
Toda noite eu escrevo mais um pedaço do meu livro. Mentalmente, é claro.
Friday, December 03, 2010
nina simone
I met him in a cell in New Orleans, I was
so down and out.
He looked at me to be the eyes of age,
as he spoke right out.
He talked of life, he talked of life.
He laughed, clicked heels instead.
Mister Bojangles
Mister Bojangles
Mister Bojangles,
dance!
so down and out.
He looked at me to be the eyes of age,
as he spoke right out.
He talked of life, he talked of life.
He laughed, clicked heels instead.
Mister Bojangles
Mister Bojangles
Mister Bojangles,
dance!
Wednesday, December 01, 2010
de volta a bunker hill
Na falta de algo novo, resolvi reler Sonhos de Bunker Hill, do John Fante. Engraçado como as coisas mudam. Em 2006 eu li e achei incrível. Hoje achei um pouco superficial, talvez até meio bobo. Não sei se porque a linguagem é muito acessível, ou porque é curtinho - terminei em dois dias - o fato é que a impressão foi outra. Jamas falarei mal, afinal, na época dei muitas risadas e admiro o autor. Nem só de drama ou rebeldia se faz a literatura. Resolvi eternizar aqui o final que me agradou (e ainda agrada) profundamente:
Me estirei na cama e dormi. Era crepúsculo quando acordei e acendi a luz. Me sentia melhor, não estava mais cansado. Fui até a máquina de escrever e sentei em frente. Meu pensamento era escrever uma frase, uma única frase perfeita. Se conseguisse escrever uma frase boa, conseguiria escrever duas, e se conseguisse escrever duas, conseguiria escrever três, e se conseguisse escrever três, conseguiria escrever para sempre. Mas, supondo que eu falhasse? Supondo que eu tivesse perdido todo o meu belo talento? Supondo que ele tivesse se consumido para sempre no fogo de Biff Newhouse ao esmurrar meu nariz ou com a morte de Helen Brownell? O que aconteceria comigo? Iria até Abe Marx e me tornaria ajudante de garçom de novo? Eu tinha dezessete dólares e medo de escrever. Sentei ereto em frente à máquina de escrever e soprei meus dedos. Por favor, Deus, por favor, Knut Hamsun, não me abandonem agora. Comecei a escrever e escrevi:
"É chegada a hora", disse o Leão-Marinho,
"De falar de muitas coisas:
De sapatos - e navios - e cera para lacre -
De repolhos - e reis -"
Olhei para aquilo e umedeci meus lábios. Não era meu, mas, com os diabos, um homem tem que começar por algum lugar.
Me estirei na cama e dormi. Era crepúsculo quando acordei e acendi a luz. Me sentia melhor, não estava mais cansado. Fui até a máquina de escrever e sentei em frente. Meu pensamento era escrever uma frase, uma única frase perfeita. Se conseguisse escrever uma frase boa, conseguiria escrever duas, e se conseguisse escrever duas, conseguiria escrever três, e se conseguisse escrever três, conseguiria escrever para sempre. Mas, supondo que eu falhasse? Supondo que eu tivesse perdido todo o meu belo talento? Supondo que ele tivesse se consumido para sempre no fogo de Biff Newhouse ao esmurrar meu nariz ou com a morte de Helen Brownell? O que aconteceria comigo? Iria até Abe Marx e me tornaria ajudante de garçom de novo? Eu tinha dezessete dólares e medo de escrever. Sentei ereto em frente à máquina de escrever e soprei meus dedos. Por favor, Deus, por favor, Knut Hamsun, não me abandonem agora. Comecei a escrever e escrevi:
"É chegada a hora", disse o Leão-Marinho,
"De falar de muitas coisas:
De sapatos - e navios - e cera para lacre -
De repolhos - e reis -"
Olhei para aquilo e umedeci meus lábios. Não era meu, mas, com os diabos, um homem tem que começar por algum lugar.
Tuesday, November 30, 2010
fragmentos
O que mais tarde tantas vezes senti, naquele tempo eu já adivinhava: que não se tem o direito de abrir um livro sem assumir o compromisso de ler todos. A cada frase começamos o mundo. Antes dos livros ele fora algo intacto, e talvez depois deles voltasse a ficar inteiro.
xxx
Descobrimos que não sabemos nosso papel, procuramos um espelho, queremos tirar a pintura e a falsidade, e sermos verdadeiros. Mas em algum lugar um pedaço de disfarce que tínhamos esquecido ainda se gruda em nós. Um traço de exagero permanece em nossas sobrancelhas, não percebemos que os cantos de nossa boca estão repuxados. E assim andamos por aí, um escárnio, metade de nós mesmos: nem reais nem atores.
Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge
xxx
Descobrimos que não sabemos nosso papel, procuramos um espelho, queremos tirar a pintura e a falsidade, e sermos verdadeiros. Mas em algum lugar um pedaço de disfarce que tínhamos esquecido ainda se gruda em nós. Um traço de exagero permanece em nossas sobrancelhas, não percebemos que os cantos de nossa boca estão repuxados. E assim andamos por aí, um escárnio, metade de nós mesmos: nem reais nem atores.
Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge
...
Acho que eu devia começar a fazer algo, a trabalhar, agora que estou aprendendo a ver. Tenho 28 anos, e praticamente não aconteceu nada. Vamos recordar: escrevi um ensaio sobre Carpaccio, que é ruim, um drama chamado O Casamento, que pretende provar algo falso com meios ambíguos, e versos. Ah, mas versos significam muito pouco se escritos cedo. Devia-se esperar, reunir sentido e doçura numa vida inteira, se possível bem longa, e depois, bem no fim, talvez conseguissem dez versos bons. Pois versos não são, como as pessoas imaginam, sentimentos (a esses, temos cedo demais) - são experiências.
É ridículo. Estou aqui sentado em meu quartinho, eu, Brigge, que completei 28 anos, e de quem ninguém sabe nada. Estou aqui sentado, e não sou nada. E, contudo, esse nada começa a pensar, e num quinto andar, numa cinzenta tarde parisiense, pensa estes pensamentos:
É possível que ainda não tenhamos visto, reconhecido e dito nada realmente verdadeiro e importante? É possível que tenhamos tido milênios para contemplar, refletir e anotar, e deixássemos esses milênios passarem como uma hora de recreio na escola, em que se come pão com manteiga e uma maçã?
Sim, é possível.
É possível que, apesar do progresso, da cultura, da religião e da sabedoria universais, tenhamos permanecido na superfície da vida? E que mesmo essa superfície - que em si já seria alguma coisa - esteja recoberta de um tecido tão incrivelmente monótono que nos pareça móveis de sala numas férias de verão?
Sim, é possível.
É possível que toda a história da humanidade tenha sido um mal-entendido? Que o passado seja falso porque sempre falamos em multidões, como numa reunião de muita gente, em vez de falarmos no único, em torno do qual todos se agrupavam porque ele era estrangeiro e morria?
Sim, é possível.
É possível termos acreditado na necessidade de recuperarmos fatos acontecidos antes de sermos nascidos? É possível que tenhamos de recordar a cada indivíduo que ele nasce dos antepassados, que portanto contém em si todo esse passado, e que nada tem a aprender com outros homens que pretendem possuir um saber melhor ou diferente?
Sim, é possível.
É possível que todos esses homens conheçam bem um passado que nunca existiu? Que para eles todas as realidades nada sejam; e sua vida transcorra desligada de tudo, como um relógio num quarto vazio?
Sim, é possível.
É possível que nada se saiba de donzelas que, ainda assim, vivem? É possível que se diga 'as mulheres', 'as crianças', 'os rapazes', sem pressentir (apesar de toda a cultura, sem pressentir) que há muito essas palavras não têm mais plural, mas apenas incontáveis singulares?
Sim, é possível.
É possível existirem pessoas que dizem 'Deus' e pensem que isso é um ser que lhes é comum? Vejam esses dois meninos de escola: um compra uma faca, o vizinho compra outra idêntica no mesmo dia. Depois de uma semana mostram-se mutuamente as facas, e acontece que só remotamente ainda se parecem - tão diversamente se desenvolvem em mãos diferentes. (Sim, diz a mãe de um deles, por que vocês precisam gastar tudo logo?) E então: é possível acreditar que se possa ter um Deus sem usá-lo?
Sim, é possível.
Mas se tudo é possível, ao menos vagamente possível, então, por tudo que há de sagrado no mundo, algo tem de acontecer. O primeiro a ter esse pensamento inquietante precisa começar a fazer algo que foi omitido; mesmo se for apenas um sujeito qualquer, talvez nem mesmo o mais indicado: simplesmente, não há outro melhor. Esse jovem estrangeiro insignificante, esse Brigge, terá de sentar-se num quinto andar e escrever, dia e noite: sim, terá de escrever, e este será o fim.
Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge
É ridículo. Estou aqui sentado em meu quartinho, eu, Brigge, que completei 28 anos, e de quem ninguém sabe nada. Estou aqui sentado, e não sou nada. E, contudo, esse nada começa a pensar, e num quinto andar, numa cinzenta tarde parisiense, pensa estes pensamentos:
É possível que ainda não tenhamos visto, reconhecido e dito nada realmente verdadeiro e importante? É possível que tenhamos tido milênios para contemplar, refletir e anotar, e deixássemos esses milênios passarem como uma hora de recreio na escola, em que se come pão com manteiga e uma maçã?
Sim, é possível.
É possível que, apesar do progresso, da cultura, da religião e da sabedoria universais, tenhamos permanecido na superfície da vida? E que mesmo essa superfície - que em si já seria alguma coisa - esteja recoberta de um tecido tão incrivelmente monótono que nos pareça móveis de sala numas férias de verão?
Sim, é possível.
É possível que toda a história da humanidade tenha sido um mal-entendido? Que o passado seja falso porque sempre falamos em multidões, como numa reunião de muita gente, em vez de falarmos no único, em torno do qual todos se agrupavam porque ele era estrangeiro e morria?
Sim, é possível.
É possível termos acreditado na necessidade de recuperarmos fatos acontecidos antes de sermos nascidos? É possível que tenhamos de recordar a cada indivíduo que ele nasce dos antepassados, que portanto contém em si todo esse passado, e que nada tem a aprender com outros homens que pretendem possuir um saber melhor ou diferente?
Sim, é possível.
É possível que todos esses homens conheçam bem um passado que nunca existiu? Que para eles todas as realidades nada sejam; e sua vida transcorra desligada de tudo, como um relógio num quarto vazio?
Sim, é possível.
É possível que nada se saiba de donzelas que, ainda assim, vivem? É possível que se diga 'as mulheres', 'as crianças', 'os rapazes', sem pressentir (apesar de toda a cultura, sem pressentir) que há muito essas palavras não têm mais plural, mas apenas incontáveis singulares?
Sim, é possível.
É possível existirem pessoas que dizem 'Deus' e pensem que isso é um ser que lhes é comum? Vejam esses dois meninos de escola: um compra uma faca, o vizinho compra outra idêntica no mesmo dia. Depois de uma semana mostram-se mutuamente as facas, e acontece que só remotamente ainda se parecem - tão diversamente se desenvolvem em mãos diferentes. (Sim, diz a mãe de um deles, por que vocês precisam gastar tudo logo?) E então: é possível acreditar que se possa ter um Deus sem usá-lo?
Sim, é possível.
Mas se tudo é possível, ao menos vagamente possível, então, por tudo que há de sagrado no mundo, algo tem de acontecer. O primeiro a ter esse pensamento inquietante precisa começar a fazer algo que foi omitido; mesmo se for apenas um sujeito qualquer, talvez nem mesmo o mais indicado: simplesmente, não há outro melhor. Esse jovem estrangeiro insignificante, esse Brigge, terá de sentar-se num quinto andar e escrever, dia e noite: sim, terá de escrever, e este será o fim.
Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge
Sunday, November 28, 2010
saturday night*
Diálogo via SMS durante a madrugada:
C: Encontrei dois amigos teus na noite.
F: Quem? Obs.: Não tenho amigos.
C: xxxx e xxxxx
F: Teu excesso de vida noturna me deixa abismada.
C: Só saí Quinta e Sábado.
F: Em duas semanas tu saiu mais do que eu em 11 meses.
C: Eu: em busca da foda perfeita. Tu: quer casar. Simples como a vida é.
F: Disse tudo.
C: Digo pouco, mas falo muito. Buk me ensinou sobre a vida e as palavras.
F: Buk: Colega. Miller: Guru. Sem mais.
C: Pode ser, mas Miller teria outros conceitos e modos nos dias de hoje.
F: Não polemiza. Adeus.
C: Isso, deixa eu ler e dormir.
F: Já vai tarde.
*Misfits
C: Encontrei dois amigos teus na noite.
F: Quem? Obs.: Não tenho amigos.
C: xxxx e xxxxx
F: Teu excesso de vida noturna me deixa abismada.
C: Só saí Quinta e Sábado.
F: Em duas semanas tu saiu mais do que eu em 11 meses.
C: Eu: em busca da foda perfeita. Tu: quer casar. Simples como a vida é.
F: Disse tudo.
C: Digo pouco, mas falo muito. Buk me ensinou sobre a vida e as palavras.
F: Buk: Colega. Miller: Guru. Sem mais.
C: Pode ser, mas Miller teria outros conceitos e modos nos dias de hoje.
F: Não polemiza. Adeus.
C: Isso, deixa eu ler e dormir.
F: Já vai tarde.
*Misfits
Saturday, November 27, 2010
...
Descontente de todos e descontente de mim, gostaria de resgatar-me e orgulhar-me um pouco no silêncio e na solidão da noite. Almas daqueles que amei, almas daqueles que cantei, fortificai-me, sustentai-me, afastai de mim a mentira e os corruptos vapores do mundo; e vós, senhor meu deus! Concedei-me a graça de produzir alguns versos belos que provem a mim mesmo que não sou o último dos homens, que não sou inferior àqueles que desprezo.
Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge
Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge
Friday, November 26, 2010
sing the changes
Estou aprendendo a ver. Não sei o que provoca isso, tudo penetra mais fundo em mim, e não pára no lugar em que costumava terminar antes. Tenho um interior que ignorava. Agora, tudo vai dar aí. E não sei o que aí acontece.
Hoje escrevi uma carta e ocorreu-me que faz apenas três semanas que estou aqui. Três semanas em outro lugar - por exemplo, no campo - poderiam ser como um dia; aqui são anos. Também não quero mais escrever cartas. Para que diria a outra pessoa que estou me modificando? Se me modifico, já não sou aquele que fui, sou algo diferente do que até agora era, então é evidente que não tenho conhecidos. E é impossível escrever cartas para gente desconhecida, gente que não me conhece.
Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge
Hoje escrevi uma carta e ocorreu-me que faz apenas três semanas que estou aqui. Três semanas em outro lugar - por exemplo, no campo - poderiam ser como um dia; aqui são anos. Também não quero mais escrever cartas. Para que diria a outra pessoa que estou me modificando? Se me modifico, já não sou aquele que fui, sou algo diferente do que até agora era, então é evidente que não tenho conhecidos. E é impossível escrever cartas para gente desconhecida, gente que não me conhece.
Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge
*So where do you want out?
**Uh, who, me? Am I first?
hm, I don't know. Really, anywhere is fine.
*Well, just give me an address or something, okay?
***Tell you what, go up three more streets,
take a right, go two more blocks,
drop this guy off on the next corner.
**Where's that?
*** I don't know either, but it's somewhere,
and it's gonna determine the course of the rest of your life.
trecho de Waking Life
Wednesday, November 24, 2010
carnage
- Amo - disse dessa vez Vandenesse ao deixar a marquesa - e para minha desgraça encontro uma mulher presa a recordações. É difícil lutar contra um morto, que não se acha presente, que não pode cometer tolices, que não desagrada nunca, e do qual só se vêem as boas qualidades. Não será querer destronar a perfeição, tentar matar os encantos da memória e as esperanças que sobrevivem a um amante perdido, precisamente porque ele só despertou desejos, tudo o que o amor tem de mais belo, de mais sedutor?
Honoré de Balzac, A Mulher de Trinta Anos
Honoré de Balzac, A Mulher de Trinta Anos
Tuesday, November 23, 2010
25
É preciso estar viva para experimentar as alegrias da vida, e até agora eu estava morta para tudo.
Honoré de Balzac, A Mulher de Trinta Anos
Honoré de Balzac, A Mulher de Trinta Anos
Thursday, November 18, 2010
Natal de 1914
Meu Natal já se transferiu de tal modo para o íntimo nos últimos anos, acredito, mesmo se tivesse permanecido em Munique, eu passaria a noite em solitude dentro dos meus aposentos, como em comemoração meditativa, contemplação e recordação. Pois desde a infância inclino-me a estar só, sem ter família ou festa familiar, porém, conexões ilimitadas com o cosmo, estou destinado a sentir não o que está perto, senão a amplidão longínqua, é o que confere toda a potência e a autenticidade ao meu sentimento. E é como me sinto voltado para você nesse instante, quando lê esta carta, minha bondosa Mama, e com amor verá mais nítida a confirmação de minha proximidade, minha presença, do que ao perceber com os olhos dos sentidos.
Rainer Maria Rilke, Cartas Natalinas à Mãe
Rainer Maria Rilke, Cartas Natalinas à Mãe
Monday, November 15, 2010
strange fruit
Na noite de 7 de Abril de 1943, ela decide festejar seu aniversário de 28 anos. A festa será em seu quarto de hotel. Estão presentes alguns músicos, amigas brancas e Jimmy Monroe. Escutam discos de Billie, dançam, bebem e fumam. O ambiente é dos mais descontraídos. Chega um de seus camaradas, um fulano bem vestido, que dizem ser particularmente violento. Depois de alguns copos, ele é a única pessoa que fala no quarto. Querendo se mostrar para as garotas, ele começa a contar vantagem e a praguejar. Billie se volta para Jimmy Monroe e lhe diz:
- Tire esse tipo daqui.
Monroe tenta argumentar com ele, mas o outro nem sequer o escuta e continua se fanfarroneando ainda mais. Subitamente, Billie se aproxima dele, com uma pilha de discos nas mãos. Ela os quebra sobre a cabeça dele. O cara vai ao chão. Monroe abre a porta e Billie segura o camarada, completamente tonto, e o joga no corredor. Billie, muito calma, recomeça a dançar, sem ao menos relancear os olhos para Jimmy Monroe.
Sylvia Fol, Billie Holiday
- Tire esse tipo daqui.
Monroe tenta argumentar com ele, mas o outro nem sequer o escuta e continua se fanfarroneando ainda mais. Subitamente, Billie se aproxima dele, com uma pilha de discos nas mãos. Ela os quebra sobre a cabeça dele. O cara vai ao chão. Monroe abre a porta e Billie segura o camarada, completamente tonto, e o joga no corredor. Billie, muito calma, recomeça a dançar, sem ao menos relancear os olhos para Jimmy Monroe.
Sylvia Fol, Billie Holiday
Friday, November 12, 2010
let me roll it

Por que motivo, quando nos encontramos diante de outra pessoa, mesmo que ela seja a melhor do mundo, havemos sempre de esconder e de calar algo? Por que não havemos nós todos de dizer com absoluta sinceridade aquilo que trazemos no coração, quando sabemos muito bem que as nossas palavras não seriam em vão? Parecemos todos mais frios e taciturnos do que somos na verdade, pode-se dizer que as pessoas têm medo de se comprometer expondo com franqueza os seus sentimentos.
Fiódor Dostoiévski, Noites Brancas
* Cézanne, The Abduction
Wednesday, November 10, 2010
chopin bukowski
este é meu piano.
o telefone toca e as pessoas perguntam,
o que você está fazendo? que tal
encher a cara com a gente?
e eu digo,
estou ao piano.
o quê?
desligo.
as pessoas precisam de mim. eu as
completo. se não podem me ver
por um tempo ficam desesperadas, ficam
doentes.
mas se as vejo muito seguido
eu fico doente. é difícil alimentar
sem ser alimentado.
meu piano me diz coisas em
troca.
às vezes as coisas estão
confusas e nada boas.
outras vezes
consigo ser tão bom e sortudo como
Chopin.
às vezes me sinto enferrujado
desafinado. isso
faz parte.
posso me sentar e vomitar sobre as
teclas
mas é meu
vômito.
é melhor do que sentar em uma sala
com 3 ou 4 pessoas e
seus pianos.
este é meu piano
e é melhor que os deles.
e eles gostam e desgostam
dele.
Charles Bukowski, O Amor é Um Cão dos Diabos
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