Tais solilóquios de rua ou de metrô ou de noites de insônia, no curso dos quais sua cabeça funcionava como um moinho de roda, impossível capturá-los quando se sentava diante de uma folha de papel em branco. E, no entanto, que extraordinárias confabulações ele tinha consigo mesmo! "Pôr o preto no branco! Escrever tudo!'' repetia em voz alta, mecanicamente, brandindo o punho fechado...
Henry Miller, Moloc
Toda noite eu escrevo mais um pedaço do meu livro. Mentalmente, é claro.
Monday, December 06, 2010
Friday, December 03, 2010
nina simone
I met him in a cell in New Orleans, I was
so down and out.
He looked at me to be the eyes of age,
as he spoke right out.
He talked of life, he talked of life.
He laughed, clicked heels instead.
Mister Bojangles
Mister Bojangles
Mister Bojangles,
dance!
so down and out.
He looked at me to be the eyes of age,
as he spoke right out.
He talked of life, he talked of life.
He laughed, clicked heels instead.
Mister Bojangles
Mister Bojangles
Mister Bojangles,
dance!
Wednesday, December 01, 2010
de volta a bunker hill
Na falta de algo novo, resolvi reler Sonhos de Bunker Hill, do John Fante. Engraçado como as coisas mudam. Em 2006 eu li e achei incrível. Hoje achei um pouco superficial, talvez até meio bobo. Não sei se porque a linguagem é muito acessível, ou porque é curtinho - terminei em dois dias - o fato é que a impressão foi outra. Jamas falarei mal, afinal, na época dei muitas risadas e admiro o autor. Nem só de drama ou rebeldia se faz a literatura. Resolvi eternizar aqui o final que me agradou (e ainda agrada) profundamente:
Me estirei na cama e dormi. Era crepúsculo quando acordei e acendi a luz. Me sentia melhor, não estava mais cansado. Fui até a máquina de escrever e sentei em frente. Meu pensamento era escrever uma frase, uma única frase perfeita. Se conseguisse escrever uma frase boa, conseguiria escrever duas, e se conseguisse escrever duas, conseguiria escrever três, e se conseguisse escrever três, conseguiria escrever para sempre. Mas, supondo que eu falhasse? Supondo que eu tivesse perdido todo o meu belo talento? Supondo que ele tivesse se consumido para sempre no fogo de Biff Newhouse ao esmurrar meu nariz ou com a morte de Helen Brownell? O que aconteceria comigo? Iria até Abe Marx e me tornaria ajudante de garçom de novo? Eu tinha dezessete dólares e medo de escrever. Sentei ereto em frente à máquina de escrever e soprei meus dedos. Por favor, Deus, por favor, Knut Hamsun, não me abandonem agora. Comecei a escrever e escrevi:
"É chegada a hora", disse o Leão-Marinho,
"De falar de muitas coisas:
De sapatos - e navios - e cera para lacre -
De repolhos - e reis -"
Olhei para aquilo e umedeci meus lábios. Não era meu, mas, com os diabos, um homem tem que começar por algum lugar.
Me estirei na cama e dormi. Era crepúsculo quando acordei e acendi a luz. Me sentia melhor, não estava mais cansado. Fui até a máquina de escrever e sentei em frente. Meu pensamento era escrever uma frase, uma única frase perfeita. Se conseguisse escrever uma frase boa, conseguiria escrever duas, e se conseguisse escrever duas, conseguiria escrever três, e se conseguisse escrever três, conseguiria escrever para sempre. Mas, supondo que eu falhasse? Supondo que eu tivesse perdido todo o meu belo talento? Supondo que ele tivesse se consumido para sempre no fogo de Biff Newhouse ao esmurrar meu nariz ou com a morte de Helen Brownell? O que aconteceria comigo? Iria até Abe Marx e me tornaria ajudante de garçom de novo? Eu tinha dezessete dólares e medo de escrever. Sentei ereto em frente à máquina de escrever e soprei meus dedos. Por favor, Deus, por favor, Knut Hamsun, não me abandonem agora. Comecei a escrever e escrevi:
"É chegada a hora", disse o Leão-Marinho,
"De falar de muitas coisas:
De sapatos - e navios - e cera para lacre -
De repolhos - e reis -"
Olhei para aquilo e umedeci meus lábios. Não era meu, mas, com os diabos, um homem tem que começar por algum lugar.
Tuesday, November 30, 2010
fragmentos
O que mais tarde tantas vezes senti, naquele tempo eu já adivinhava: que não se tem o direito de abrir um livro sem assumir o compromisso de ler todos. A cada frase começamos o mundo. Antes dos livros ele fora algo intacto, e talvez depois deles voltasse a ficar inteiro.
xxx
Descobrimos que não sabemos nosso papel, procuramos um espelho, queremos tirar a pintura e a falsidade, e sermos verdadeiros. Mas em algum lugar um pedaço de disfarce que tínhamos esquecido ainda se gruda em nós. Um traço de exagero permanece em nossas sobrancelhas, não percebemos que os cantos de nossa boca estão repuxados. E assim andamos por aí, um escárnio, metade de nós mesmos: nem reais nem atores.
Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge
xxx
Descobrimos que não sabemos nosso papel, procuramos um espelho, queremos tirar a pintura e a falsidade, e sermos verdadeiros. Mas em algum lugar um pedaço de disfarce que tínhamos esquecido ainda se gruda em nós. Um traço de exagero permanece em nossas sobrancelhas, não percebemos que os cantos de nossa boca estão repuxados. E assim andamos por aí, um escárnio, metade de nós mesmos: nem reais nem atores.
Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge
...
Acho que eu devia começar a fazer algo, a trabalhar, agora que estou aprendendo a ver. Tenho 28 anos, e praticamente não aconteceu nada. Vamos recordar: escrevi um ensaio sobre Carpaccio, que é ruim, um drama chamado O Casamento, que pretende provar algo falso com meios ambíguos, e versos. Ah, mas versos significam muito pouco se escritos cedo. Devia-se esperar, reunir sentido e doçura numa vida inteira, se possível bem longa, e depois, bem no fim, talvez conseguissem dez versos bons. Pois versos não são, como as pessoas imaginam, sentimentos (a esses, temos cedo demais) - são experiências.
É ridículo. Estou aqui sentado em meu quartinho, eu, Brigge, que completei 28 anos, e de quem ninguém sabe nada. Estou aqui sentado, e não sou nada. E, contudo, esse nada começa a pensar, e num quinto andar, numa cinzenta tarde parisiense, pensa estes pensamentos:
É possível que ainda não tenhamos visto, reconhecido e dito nada realmente verdadeiro e importante? É possível que tenhamos tido milênios para contemplar, refletir e anotar, e deixássemos esses milênios passarem como uma hora de recreio na escola, em que se come pão com manteiga e uma maçã?
Sim, é possível.
É possível que, apesar do progresso, da cultura, da religião e da sabedoria universais, tenhamos permanecido na superfície da vida? E que mesmo essa superfície - que em si já seria alguma coisa - esteja recoberta de um tecido tão incrivelmente monótono que nos pareça móveis de sala numas férias de verão?
Sim, é possível.
É possível que toda a história da humanidade tenha sido um mal-entendido? Que o passado seja falso porque sempre falamos em multidões, como numa reunião de muita gente, em vez de falarmos no único, em torno do qual todos se agrupavam porque ele era estrangeiro e morria?
Sim, é possível.
É possível termos acreditado na necessidade de recuperarmos fatos acontecidos antes de sermos nascidos? É possível que tenhamos de recordar a cada indivíduo que ele nasce dos antepassados, que portanto contém em si todo esse passado, e que nada tem a aprender com outros homens que pretendem possuir um saber melhor ou diferente?
Sim, é possível.
É possível que todos esses homens conheçam bem um passado que nunca existiu? Que para eles todas as realidades nada sejam; e sua vida transcorra desligada de tudo, como um relógio num quarto vazio?
Sim, é possível.
É possível que nada se saiba de donzelas que, ainda assim, vivem? É possível que se diga 'as mulheres', 'as crianças', 'os rapazes', sem pressentir (apesar de toda a cultura, sem pressentir) que há muito essas palavras não têm mais plural, mas apenas incontáveis singulares?
Sim, é possível.
É possível existirem pessoas que dizem 'Deus' e pensem que isso é um ser que lhes é comum? Vejam esses dois meninos de escola: um compra uma faca, o vizinho compra outra idêntica no mesmo dia. Depois de uma semana mostram-se mutuamente as facas, e acontece que só remotamente ainda se parecem - tão diversamente se desenvolvem em mãos diferentes. (Sim, diz a mãe de um deles, por que vocês precisam gastar tudo logo?) E então: é possível acreditar que se possa ter um Deus sem usá-lo?
Sim, é possível.
Mas se tudo é possível, ao menos vagamente possível, então, por tudo que há de sagrado no mundo, algo tem de acontecer. O primeiro a ter esse pensamento inquietante precisa começar a fazer algo que foi omitido; mesmo se for apenas um sujeito qualquer, talvez nem mesmo o mais indicado: simplesmente, não há outro melhor. Esse jovem estrangeiro insignificante, esse Brigge, terá de sentar-se num quinto andar e escrever, dia e noite: sim, terá de escrever, e este será o fim.
Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge
É ridículo. Estou aqui sentado em meu quartinho, eu, Brigge, que completei 28 anos, e de quem ninguém sabe nada. Estou aqui sentado, e não sou nada. E, contudo, esse nada começa a pensar, e num quinto andar, numa cinzenta tarde parisiense, pensa estes pensamentos:
É possível que ainda não tenhamos visto, reconhecido e dito nada realmente verdadeiro e importante? É possível que tenhamos tido milênios para contemplar, refletir e anotar, e deixássemos esses milênios passarem como uma hora de recreio na escola, em que se come pão com manteiga e uma maçã?
Sim, é possível.
É possível que, apesar do progresso, da cultura, da religião e da sabedoria universais, tenhamos permanecido na superfície da vida? E que mesmo essa superfície - que em si já seria alguma coisa - esteja recoberta de um tecido tão incrivelmente monótono que nos pareça móveis de sala numas férias de verão?
Sim, é possível.
É possível que toda a história da humanidade tenha sido um mal-entendido? Que o passado seja falso porque sempre falamos em multidões, como numa reunião de muita gente, em vez de falarmos no único, em torno do qual todos se agrupavam porque ele era estrangeiro e morria?
Sim, é possível.
É possível termos acreditado na necessidade de recuperarmos fatos acontecidos antes de sermos nascidos? É possível que tenhamos de recordar a cada indivíduo que ele nasce dos antepassados, que portanto contém em si todo esse passado, e que nada tem a aprender com outros homens que pretendem possuir um saber melhor ou diferente?
Sim, é possível.
É possível que todos esses homens conheçam bem um passado que nunca existiu? Que para eles todas as realidades nada sejam; e sua vida transcorra desligada de tudo, como um relógio num quarto vazio?
Sim, é possível.
É possível que nada se saiba de donzelas que, ainda assim, vivem? É possível que se diga 'as mulheres', 'as crianças', 'os rapazes', sem pressentir (apesar de toda a cultura, sem pressentir) que há muito essas palavras não têm mais plural, mas apenas incontáveis singulares?
Sim, é possível.
É possível existirem pessoas que dizem 'Deus' e pensem que isso é um ser que lhes é comum? Vejam esses dois meninos de escola: um compra uma faca, o vizinho compra outra idêntica no mesmo dia. Depois de uma semana mostram-se mutuamente as facas, e acontece que só remotamente ainda se parecem - tão diversamente se desenvolvem em mãos diferentes. (Sim, diz a mãe de um deles, por que vocês precisam gastar tudo logo?) E então: é possível acreditar que se possa ter um Deus sem usá-lo?
Sim, é possível.
Mas se tudo é possível, ao menos vagamente possível, então, por tudo que há de sagrado no mundo, algo tem de acontecer. O primeiro a ter esse pensamento inquietante precisa começar a fazer algo que foi omitido; mesmo se for apenas um sujeito qualquer, talvez nem mesmo o mais indicado: simplesmente, não há outro melhor. Esse jovem estrangeiro insignificante, esse Brigge, terá de sentar-se num quinto andar e escrever, dia e noite: sim, terá de escrever, e este será o fim.
Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge
Sunday, November 28, 2010
saturday night*
Diálogo via SMS durante a madrugada:
C: Encontrei dois amigos teus na noite.
F: Quem? Obs.: Não tenho amigos.
C: xxxx e xxxxx
F: Teu excesso de vida noturna me deixa abismada.
C: Só saí Quinta e Sábado.
F: Em duas semanas tu saiu mais do que eu em 11 meses.
C: Eu: em busca da foda perfeita. Tu: quer casar. Simples como a vida é.
F: Disse tudo.
C: Digo pouco, mas falo muito. Buk me ensinou sobre a vida e as palavras.
F: Buk: Colega. Miller: Guru. Sem mais.
C: Pode ser, mas Miller teria outros conceitos e modos nos dias de hoje.
F: Não polemiza. Adeus.
C: Isso, deixa eu ler e dormir.
F: Já vai tarde.
*Misfits
C: Encontrei dois amigos teus na noite.
F: Quem? Obs.: Não tenho amigos.
C: xxxx e xxxxx
F: Teu excesso de vida noturna me deixa abismada.
C: Só saí Quinta e Sábado.
F: Em duas semanas tu saiu mais do que eu em 11 meses.
C: Eu: em busca da foda perfeita. Tu: quer casar. Simples como a vida é.
F: Disse tudo.
C: Digo pouco, mas falo muito. Buk me ensinou sobre a vida e as palavras.
F: Buk: Colega. Miller: Guru. Sem mais.
C: Pode ser, mas Miller teria outros conceitos e modos nos dias de hoje.
F: Não polemiza. Adeus.
C: Isso, deixa eu ler e dormir.
F: Já vai tarde.
*Misfits
Saturday, November 27, 2010
...
Descontente de todos e descontente de mim, gostaria de resgatar-me e orgulhar-me um pouco no silêncio e na solidão da noite. Almas daqueles que amei, almas daqueles que cantei, fortificai-me, sustentai-me, afastai de mim a mentira e os corruptos vapores do mundo; e vós, senhor meu deus! Concedei-me a graça de produzir alguns versos belos que provem a mim mesmo que não sou o último dos homens, que não sou inferior àqueles que desprezo.
Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge
Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge
Friday, November 26, 2010
sing the changes
Estou aprendendo a ver. Não sei o que provoca isso, tudo penetra mais fundo em mim, e não pára no lugar em que costumava terminar antes. Tenho um interior que ignorava. Agora, tudo vai dar aí. E não sei o que aí acontece.
Hoje escrevi uma carta e ocorreu-me que faz apenas três semanas que estou aqui. Três semanas em outro lugar - por exemplo, no campo - poderiam ser como um dia; aqui são anos. Também não quero mais escrever cartas. Para que diria a outra pessoa que estou me modificando? Se me modifico, já não sou aquele que fui, sou algo diferente do que até agora era, então é evidente que não tenho conhecidos. E é impossível escrever cartas para gente desconhecida, gente que não me conhece.
Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge
Hoje escrevi uma carta e ocorreu-me que faz apenas três semanas que estou aqui. Três semanas em outro lugar - por exemplo, no campo - poderiam ser como um dia; aqui são anos. Também não quero mais escrever cartas. Para que diria a outra pessoa que estou me modificando? Se me modifico, já não sou aquele que fui, sou algo diferente do que até agora era, então é evidente que não tenho conhecidos. E é impossível escrever cartas para gente desconhecida, gente que não me conhece.
Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge
*So where do you want out?
**Uh, who, me? Am I first?
hm, I don't know. Really, anywhere is fine.
*Well, just give me an address or something, okay?
***Tell you what, go up three more streets,
take a right, go two more blocks,
drop this guy off on the next corner.
**Where's that?
*** I don't know either, but it's somewhere,
and it's gonna determine the course of the rest of your life.
trecho de Waking Life
Wednesday, November 24, 2010
carnage
- Amo - disse dessa vez Vandenesse ao deixar a marquesa - e para minha desgraça encontro uma mulher presa a recordações. É difícil lutar contra um morto, que não se acha presente, que não pode cometer tolices, que não desagrada nunca, e do qual só se vêem as boas qualidades. Não será querer destronar a perfeição, tentar matar os encantos da memória e as esperanças que sobrevivem a um amante perdido, precisamente porque ele só despertou desejos, tudo o que o amor tem de mais belo, de mais sedutor?
Honoré de Balzac, A Mulher de Trinta Anos
Honoré de Balzac, A Mulher de Trinta Anos
Tuesday, November 23, 2010
25
É preciso estar viva para experimentar as alegrias da vida, e até agora eu estava morta para tudo.
Honoré de Balzac, A Mulher de Trinta Anos
Honoré de Balzac, A Mulher de Trinta Anos
Thursday, November 18, 2010
Natal de 1914
Meu Natal já se transferiu de tal modo para o íntimo nos últimos anos, acredito, mesmo se tivesse permanecido em Munique, eu passaria a noite em solitude dentro dos meus aposentos, como em comemoração meditativa, contemplação e recordação. Pois desde a infância inclino-me a estar só, sem ter família ou festa familiar, porém, conexões ilimitadas com o cosmo, estou destinado a sentir não o que está perto, senão a amplidão longínqua, é o que confere toda a potência e a autenticidade ao meu sentimento. E é como me sinto voltado para você nesse instante, quando lê esta carta, minha bondosa Mama, e com amor verá mais nítida a confirmação de minha proximidade, minha presença, do que ao perceber com os olhos dos sentidos.
Rainer Maria Rilke, Cartas Natalinas à Mãe
Rainer Maria Rilke, Cartas Natalinas à Mãe
Monday, November 15, 2010
strange fruit
Na noite de 7 de Abril de 1943, ela decide festejar seu aniversário de 28 anos. A festa será em seu quarto de hotel. Estão presentes alguns músicos, amigas brancas e Jimmy Monroe. Escutam discos de Billie, dançam, bebem e fumam. O ambiente é dos mais descontraídos. Chega um de seus camaradas, um fulano bem vestido, que dizem ser particularmente violento. Depois de alguns copos, ele é a única pessoa que fala no quarto. Querendo se mostrar para as garotas, ele começa a contar vantagem e a praguejar. Billie se volta para Jimmy Monroe e lhe diz:
- Tire esse tipo daqui.
Monroe tenta argumentar com ele, mas o outro nem sequer o escuta e continua se fanfarroneando ainda mais. Subitamente, Billie se aproxima dele, com uma pilha de discos nas mãos. Ela os quebra sobre a cabeça dele. O cara vai ao chão. Monroe abre a porta e Billie segura o camarada, completamente tonto, e o joga no corredor. Billie, muito calma, recomeça a dançar, sem ao menos relancear os olhos para Jimmy Monroe.
Sylvia Fol, Billie Holiday
- Tire esse tipo daqui.
Monroe tenta argumentar com ele, mas o outro nem sequer o escuta e continua se fanfarroneando ainda mais. Subitamente, Billie se aproxima dele, com uma pilha de discos nas mãos. Ela os quebra sobre a cabeça dele. O cara vai ao chão. Monroe abre a porta e Billie segura o camarada, completamente tonto, e o joga no corredor. Billie, muito calma, recomeça a dançar, sem ao menos relancear os olhos para Jimmy Monroe.
Sylvia Fol, Billie Holiday
Friday, November 12, 2010
let me roll it

Por que motivo, quando nos encontramos diante de outra pessoa, mesmo que ela seja a melhor do mundo, havemos sempre de esconder e de calar algo? Por que não havemos nós todos de dizer com absoluta sinceridade aquilo que trazemos no coração, quando sabemos muito bem que as nossas palavras não seriam em vão? Parecemos todos mais frios e taciturnos do que somos na verdade, pode-se dizer que as pessoas têm medo de se comprometer expondo com franqueza os seus sentimentos.
Fiódor Dostoiévski, Noites Brancas
* Cézanne, The Abduction
Wednesday, November 10, 2010
chopin bukowski
este é meu piano.
o telefone toca e as pessoas perguntam,
o que você está fazendo? que tal
encher a cara com a gente?
e eu digo,
estou ao piano.
o quê?
desligo.
as pessoas precisam de mim. eu as
completo. se não podem me ver
por um tempo ficam desesperadas, ficam
doentes.
mas se as vejo muito seguido
eu fico doente. é difícil alimentar
sem ser alimentado.
meu piano me diz coisas em
troca.
às vezes as coisas estão
confusas e nada boas.
outras vezes
consigo ser tão bom e sortudo como
Chopin.
às vezes me sinto enferrujado
desafinado. isso
faz parte.
posso me sentar e vomitar sobre as
teclas
mas é meu
vômito.
é melhor do que sentar em uma sala
com 3 ou 4 pessoas e
seus pianos.
este é meu piano
e é melhor que os deles.
e eles gostam e desgostam
dele.
Charles Bukowski, O Amor é Um Cão dos Diabos
Tuesday, November 09, 2010
garotas calmas e limpas em vestidos de algodão
(...)
preciso de uma boa mulher. preciso de uma boa mulher mais do que da máquina de escrever, mais do que do
meu automóvel, mais do que de
Mozart; preciso tanto de uma boa mulher que posso
senti-la no ar, posso senti-la
na ponta dos dedos, posso ver calçadas construídas
para seus pés caminharem,
posso ver travesseiros para sua cabeça,
posso sentir a expectativa da minha risada,
posso vê-la acariciar um gato,
posso vê-la dormir,
posso ver seus chinelos no chão.
eu sei que ela existe
mas em que parte deste planeta ela está
enquanto as putas continuam me encontrando?
Charles Bukowski, O Amor é Um Cão dos Diabos
Monday, November 01, 2010
e no fim
A verdade é mais velha que o mundo, mais pesada que a história, uma
perda maior que o sangue, uma dádiva maior que o pão.
perda maior que o sangue, uma dádiva maior que o pão.
Jack Kerouac, Despertar: Uma Vida de Buda
Saturday, October 30, 2010
...
"Sentando-se sozinho, deitando-se sozinho, caminhando sozinho sem parar, e sozinho subjugando a si mesmo, deixe um homem ser feliz perto da margem de uma floresta."
"Os construtores de poços conduzem a água para onde querem;
os fabricantes de flechas submetem a seta;
carpinteiros submetem um tronco de madeira;
boas pessoas moldam a si mesmas."
- Darmapada
Jack Kerouac, Despertar: Uma Vida de Buda
Tuesday, October 26, 2010
amor e ódio
Mas naquela época, justamente em meio a estas comoções e perturbações, descobri que, se desejasse realmente libertar-me da minha rigidez e tomar um decisão, cada um dos meus atos, e todos os movimentos que existiam em mim iam sempre ao teu encontro, e te procuravam. Então, quando pela primeira vez, após este luto apático, vi-me obrigado a pensar novamente no dia de amanhã, quando atrás de ti ergueu-se novamente o destino, enviando-me a dura pergunta através da tua voz que se havia tornado estranha: "O que queres fazer?" - neste momento todo o gelo pareceu derreter-se em mim. Da geleira brotou a onda, arremessando-se com todo vigor ao encontro da margem, sem hesitações e sem dúvidas. Quando me perguntaste sobre o futuro e me encontraste indefeso, e eu passei uma noite insone, atormentado por esta angústia, soube, ao reencontrar-te de manhã, que és a amiga sempre nova, sempre jovem, a minha eterna meta, e que para mim existe apenas uma realização que tudo abrange: ir ao teu encontro.
As tuas cordas são ricas, e por mais longe que eu possa ir - sempre estás novamente diante de mim.
Rainer Maria Rilke, O Diário de Florença
only your words melt my twenty year freeze
Descendents - In Love this Way
Estou falida e não tenho como comprar livros, então decidi tentar terminar de ler Do Outro Lado do Rio, Entre as Árvores do Hemingway. Insuportável define essa obra, mas sou contra deixar algo pela metade, até para não falar mal injustamente. Tentei achar beleza nos livros dele, já li três ou quatro, não me recordo. Não entendo como ele ganhou Prêmio Nobel de Literatura. Quem acha que ele foi legal... precisa ler algo além de O Velho e o Mar. Digo isso sem arrogância ou pretensão, apenas sinceridade. Sem mais.
As tuas cordas são ricas, e por mais longe que eu possa ir - sempre estás novamente diante de mim.
Rainer Maria Rilke, O Diário de Florença
only your words melt my twenty year freeze
Descendents - In Love this Way
Estou falida e não tenho como comprar livros, então decidi tentar terminar de ler Do Outro Lado do Rio, Entre as Árvores do Hemingway. Insuportável define essa obra, mas sou contra deixar algo pela metade, até para não falar mal injustamente. Tentei achar beleza nos livros dele, já li três ou quatro, não me recordo. Não entendo como ele ganhou Prêmio Nobel de Literatura. Quem acha que ele foi legal... precisa ler algo além de O Velho e o Mar. Digo isso sem arrogância ou pretensão, apenas sinceridade. Sem mais.
Friday, October 22, 2010
virei nuvem.
Vivemos tão mal porque chegamos sempre inacabados ao presente, incapazes e dispersos em tudo. Não consigo recordar nenhum momento da minha vida sem tais censuras e outras maiores. Acho que só nos dez dias após o nascimento de Ruth* vivi sem perda; achando a realidade, até o mais ínfimo, tão indescritível, como ela provavelmente sempre é.
* fila de Rilke
Rainer Maria Rilke, Cartas Sobre Cézanne

Lembrei do seguinte trecho de Waking Life:
(...) And that's what film has. It's just that moment, which is holy. You know, like this moment, it's holy. But we walk around like it's not holy. We walk around like there's some holy moments and there are all the other moments that are not holy, right, but this moment is holy, right? And if film can let us see that, like frame it so that we see, like, "Ah, this moment. Holy." And it's like "Holy, holy, holy" moment by moment. But, like, who can live that way? Who can go, like, "Wow, holy"? Because if I were to look at you and just really let you be holy, I don't know, I would, like, stop talking.
* fila de Rilke
Rainer Maria Rilke, Cartas Sobre Cézanne

Lembrei do seguinte trecho de Waking Life:
(...) And that's what film has. It's just that moment, which is holy. You know, like this moment, it's holy. But we walk around like it's not holy. We walk around like there's some holy moments and there are all the other moments that are not holy, right, but this moment is holy, right? And if film can let us see that, like frame it so that we see, like, "Ah, this moment. Holy." And it's like "Holy, holy, holy" moment by moment. But, like, who can live that way? Who can go, like, "Wow, holy"? Because if I were to look at you and just really let you be holy, I don't know, I would, like, stop talking.
Well, you'd be in the moment, I mean ....
Yeah
The moment is holy.
Thursday, October 21, 2010
rabo de galo
e o cachorrinho riu*
(...) como poderia eu ter chegado à idade de que gozo hoje sem estes períodos de repouso e respiração funda? Como poderia eu ter lutado para abrir caminho até à serenidade com que hoje contemplo os erros da juventude e com que suporto os terrores da idade? Como poderia ter chegado ao ponto de ser capaz de extrair as consequências do meu temperamento reconhecidamente infeliz, digamos antes, para não ser tão rude, do meu temperamento pouco feliz, e conseguir viver quase em perfeito acordo com elas? Solitário e afastado, sem nada em que me ocupar a não ser as minhas desesperadas investigações, a meu ver absolutamente indispensáveis, é este o modo como vivo; contudo, no meu isolamento, não perdi de vista os meus, frequentemente chegam até mim notícias deles, e de vez em quando até consinto que recebam notícias minhas. Os outros tratam-me com respeito, mas não compreendem o meu gênero de vida (...)
Franz Kafka, A Grande Muralha da China
*quem leu Pergunte ao Pó do Fante entenderá essa.
Franz Kafka, A Grande Muralha da China
*quem leu Pergunte ao Pó do Fante entenderá essa.
Wednesday, October 20, 2010
sobre viver na toca
Todos estes anos tenho tido imensa sorte, e a sorte estragou-me; tenho tido preocupações, mas a preocupação não conduz a nada de concreto, quando se tem a sorte a apoiar-nos.
Franz Kafka, A Grande Muralha da China
I know it's tough sometimes to be with me
When I'm predicting rain most every day
Lately I've been right, almost every time
Descendents - Lucky
Franz Kafka, A Grande Muralha da China
I know it's tough sometimes to be with me
When I'm predicting rain most every day
Lately I've been right, almost every time
Descendents - Lucky
Tuesday, October 19, 2010
...
Se ainda existirem temores ou dúvidas em suas almas, rejeitem ambos e não os levem em conta. Mesmo que avultem em seus caminhos: haverá sempre montanhas erguendo-se diante do passado.
Rainer Maria Rilke, O Diário de Florença
Apenas um fragmento. Me fez lembrar do final de Trópico de Câncer, não sei exatamente o porquê. Tenho que comentar algumas coisas que andei lendo, mas vou empurrar com a barriga (para não perder o costume) e escrever outro dia.
Rainer Maria Rilke, O Diário de Florença
Apenas um fragmento. Me fez lembrar do final de Trópico de Câncer, não sei exatamente o porquê. Tenho que comentar algumas coisas que andei lendo, mas vou empurrar com a barriga (para não perder o costume) e escrever outro dia.
Monday, October 18, 2010
o caminho em direção a si mesmo.
Se já estou suficientemente calmo e maduro para iniciar o diário que pretendo passar às tuas mãos - não o sei. Sinto, porém, que minha alegria permanece impessoal e sem brilho, enquanto dela não participares como confidente - ao menos por intermédio de alguma anotação íntima e sincera sobre esta alegria em um livro que te pertence. Começarei, então. E aceito de bom grado como augúrio o fato de iniciar esta demonstração da minha saudade nestes dias que um ano inteiro separa daqueles em que, com o mesmo anseio, eu caminhava ao encontro de algo indeterminado, não sabendo ainda que tu és a realização para a qual me preparava em versos inquiridores.
xxx
Saibam, pois, que a arte é: um caminho para a liberdade. Todos nós nascemos acorrentados. Um ou outro esquece os seus grilhões, revestindo-os de prata ou de ouro. Mas nós queremos quebrá-los. Não com violência torpe e selvagem; queremos nos desvencilhar crescendo, até que eles não nos caibam mais.
Rainer Maria Rilke, O Diário de Florença
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