Assisti "Jack Kerouac - King of the Beats" e digo o seguinte: tudo faz sentido. Primeiro me sinto feliz por ter terminado de ler Cidade Pequena, Cidade Grande antes de ver o documentário, porque o livro é praticamente narrado ao longo da filmagem. É antigo, curto, não tem muita riqueza de detalhes, mas acho válido pra quem já leu parte da obra dele. Quando falam sobre a época que ele viveu em Big Sur, a decadência e o alcoolismo, é bem impressionante. Nota-se tudo lendo o livro, porém, ver as pessoas que conheciam ele comentar soma bastante à essa impressão anterior. Certamente, antes de estourar On the Road, Jack se perguntou "onde eu me encaixo?". A resposta não veio com o sucesso, nem com o isolamento. Uma pena. Grande homem.
Friday, July 02, 2010
Thursday, July 01, 2010
accident prone
"Estamos sempre em dois mundos ao mesmo tempo, e nenhum deles é o mundo da realidade. Um é o mundo onde pensamos que estamos, o outro é o mundo onde gostaríamos de estar. De vez em quando, como se fosse através de uma fresta na porta - ou como o míope que adormece no trem -, obtemos uma rápida visão do mundo permanente. Quando fazemos isso, sabemos, mais do que qualquer metafísico pode demonstrar, a diferença entre verdadeiro e falso, real e ilusório."
Henry Miller, Big Sur e as Laranjas de Hieronymus Bosch
What's the furthest place from here?
It hasn't been my day for a couple years.
What's a couple more?
Henry Miller, Big Sur e as Laranjas de Hieronymus Bosch
What's the furthest place from here?
It hasn't been my day for a couple years.
What's a couple more?
Sunday, June 27, 2010
não sei.
"Quando é que a pessoa deve dispor-se a agir? O que constitui um ato? E deixar de agir, algumas vezes, não será uma forma mais elevada de ação?"
Henry Miller, Big Sur e as Laranjas de Hieronymus Bosch
Henry Miller, Big Sur e as Laranjas de Hieronymus Bosch
Thursday, June 24, 2010
quando a cidade dorme
Já terminei o livro, mas achei nos rascunhos do meu gmail esse trecho que ainda não tinha postado, então lá vai:
"Viu que a luta da vida era interminável, cansativa, dolorosa, que nada era feito rapidamente, sem esforço, que precisava passar por mil dobras, revisões, modelagens, acréscimos, remoções, enxertos, cortes, correções, alisamentos, reconstruções, reconsiderações, pregadas, colagens, raspagens, marteladas, levantamentos, conexões - todas as coisas incompletas hesitantes e incertas do esforço humano. Elas continuavam para sempre e estavam para sempre incompletas, longe da perfeição, refinamento ou polimento, cheias de memórias terríveis de fracassos e medos de fracasso, ainda assim, do seu jeito, de algum modo nobre, completas e reluzentes no final. Isso ele podia sentir mesmo da casa velha onde eles moravam, com suas paredes e pisos solidamente construídos que se mantinham juntos como rocha: algum homem, possivelmente um homem raivoso e pessimista, tinha construído a casa muito tempo atrás, mas a casa permanecia de pé, e sua raiva e pessimismo e suores irritados de trabalho foram esquecidos; a casa permanecia de pé, e outros homens viviam nela e ficavam muito bem abrigados nela."
Jack Kerouac, Cidade Pequena, Cidade Grande
difícil não colocar fotos dele por aqui. jack e seu olhar penetrante. cada imagem me impressiona mais. ah, se eu pudesse ter visto ao vivo... no geral olhos claros tendem a dizer menos do que olhos escuros, mas ele é exceção. não sei se pelo tamanho, formato, ou simplesmente pela loucura toda. e ta aí uma coisa que eu me orgulho muito de ter: olhos expressivos. sempre dizem que eu falo com eles, então creio que seja verdade. olhos pequenos, mortos, apáticos, vazios, por favor, me poupem da chatisse de encará-los. prefiro os que assustam de tanta expressividade. melhor me sentir desafiada por um olhar confiante do que ficar entediada com um de peixe-morto."E é através dos olhos da alma que o paraíso é visionado. Se há falhas em seu paraíso, abra mais janelas!"
hey coffee eyes
you got me coughin' up my cookie heart
Sunday, June 20, 2010
sal paradise
i don't know anything but the word is getting around,
there's trouble in paradise, your heart is gonna pay the price
Quando eu digo que nada é por acaso, falo sério. Ontem encontrei uma pessoa que eu não sabia que conhecia (amnésia alcoólica) e o comentário foi "eu insistia pra saber o teu nome e tu só dizia PARADISE, PARADISE". Acordo hoje e começo a ler meu guru, Henry Miller. Eis que me deparo com isso:
"Como é elucidativa essa atitude quanto à deplorável resignação à qual sucumbem homens e mulheres! Claro que todos percebem, a certa altura, ao longo do caminho, que poderiam levar uma vida muito melhor do que aquela que escolheram. O que impede isso, em geral, é o medo dos sacrifícios necessários. (Mesmo abandonar as correntes que os prendem parece um sacrifício.) Mas todo mundo sabe que nada é realizado sem sacrifício.
O anseio por um paraíso, na terra ou no além, quase parou de existir. Em vez de idée-force, tornou-se idée-fixe. De mito potente, degenerou em tabu. Os homens sacrificam suas vidas para tornar o mundo melhor - seja lá o que entendam por isso -, mas não movem uma palha para alcançar o paraíso. Tampouco lutam para criar um pouquinho de paraíso no inferno onde se encontram. É tão mais fácil, e mais sangrento, fazer uma revolução, o que significa, em termos simples, estabelecer outro status quo, só que diferente. Se o paraíso fosse realizável - está é a réplica clássica! -, não seria mais paraíso.
O que se poderá dizer a um homem que insiste em construir sua própria prisão?
Há um tipo de indivíduo que, após encontrar o que ele considera um paraíso, começa a botar defeitos nele. No final, o paraíso desse homem se torna ainda pior do que o inferno do qual ele fugiu.
Sem dúvidas, o paraíso, seja lá qual for, tem defeitos (defeitos paradisíacos, podemos dizer assim). Se não tivesse, seria incapaz de atrair os corações dos homens ou dos anjos.
As janelas da alma são infinitas, dizem-nos. E é através dos olhos da alma que o paraíso é visionado. Se há falhas em seu paraíso, abra mais janelas! A visão é, inteiramente, uma faculdade criativa: usa o corpo e a mente como o navegador usa seus instrumentos. Aberta e alerta, pouco importa se alguém descobre um suposto atalho para as Índias ou se descobre um novo mundo. Tudo pede para ser descoberto, não por acaso, mas intuitivamente. Procurando intuitivamente, o destino de uma pessoa jamais está num além do tempo ou do espaço, mas sempre aqui e agora. Se estamos sempre chegando e partindo, é também verdade que estamos eternamente ancorados. Nosso destino não é nunca um lugar, mas sim uma nova maneira de olhar para as coisas. E isso significa que não há limites para a visão. Da mesma forma, não há limites para o paraíso. Qualquer paraíso digno desse nome pode sustentar todas as falhas da criação e continuar com sua grandeza, impoluto."
Henry Miller, Big Sur e as Laranjas de Hieronymus Bosch
Aproveito o que foi dito sobre estar sempre chegando e partindo e repito um trecho do genial Waking Life que já postei por aqui: The sea refuses no river. The idea is to remain in a state of constant departure while always arriving. It saves on introductions and goodbyes. The ride does not require explanation - just occupance.
there's trouble in paradise, your heart is gonna pay the price
Quando eu digo que nada é por acaso, falo sério. Ontem encontrei uma pessoa que eu não sabia que conhecia (amnésia alcoólica) e o comentário foi "eu insistia pra saber o teu nome e tu só dizia PARADISE, PARADISE". Acordo hoje e começo a ler meu guru, Henry Miller. Eis que me deparo com isso:
"Como é elucidativa essa atitude quanto à deplorável resignação à qual sucumbem homens e mulheres! Claro que todos percebem, a certa altura, ao longo do caminho, que poderiam levar uma vida muito melhor do que aquela que escolheram. O que impede isso, em geral, é o medo dos sacrifícios necessários. (Mesmo abandonar as correntes que os prendem parece um sacrifício.) Mas todo mundo sabe que nada é realizado sem sacrifício.
O anseio por um paraíso, na terra ou no além, quase parou de existir. Em vez de idée-force, tornou-se idée-fixe. De mito potente, degenerou em tabu. Os homens sacrificam suas vidas para tornar o mundo melhor - seja lá o que entendam por isso -, mas não movem uma palha para alcançar o paraíso. Tampouco lutam para criar um pouquinho de paraíso no inferno onde se encontram. É tão mais fácil, e mais sangrento, fazer uma revolução, o que significa, em termos simples, estabelecer outro status quo, só que diferente. Se o paraíso fosse realizável - está é a réplica clássica! -, não seria mais paraíso.
O que se poderá dizer a um homem que insiste em construir sua própria prisão?
Há um tipo de indivíduo que, após encontrar o que ele considera um paraíso, começa a botar defeitos nele. No final, o paraíso desse homem se torna ainda pior do que o inferno do qual ele fugiu.
Sem dúvidas, o paraíso, seja lá qual for, tem defeitos (defeitos paradisíacos, podemos dizer assim). Se não tivesse, seria incapaz de atrair os corações dos homens ou dos anjos.
As janelas da alma são infinitas, dizem-nos. E é através dos olhos da alma que o paraíso é visionado. Se há falhas em seu paraíso, abra mais janelas! A visão é, inteiramente, uma faculdade criativa: usa o corpo e a mente como o navegador usa seus instrumentos. Aberta e alerta, pouco importa se alguém descobre um suposto atalho para as Índias ou se descobre um novo mundo. Tudo pede para ser descoberto, não por acaso, mas intuitivamente. Procurando intuitivamente, o destino de uma pessoa jamais está num além do tempo ou do espaço, mas sempre aqui e agora. Se estamos sempre chegando e partindo, é também verdade que estamos eternamente ancorados. Nosso destino não é nunca um lugar, mas sim uma nova maneira de olhar para as coisas. E isso significa que não há limites para a visão. Da mesma forma, não há limites para o paraíso. Qualquer paraíso digno desse nome pode sustentar todas as falhas da criação e continuar com sua grandeza, impoluto."
Henry Miller, Big Sur e as Laranjas de Hieronymus Bosch
Aproveito o que foi dito sobre estar sempre chegando e partindo e repito um trecho do genial Waking Life que já postei por aqui: The sea refuses no river. The idea is to remain in a state of constant departure while always arriving. It saves on introductions and goodbyes. The ride does not require explanation - just occupance.
Friday, June 18, 2010
OH, YES
there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than
too late.
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than
too late.
Charles Bukowski
first step
"Às vezes pensava em como era tênue a linha traçada dentro dele entre amor ou indiferença, devoção ou aversão, preocupação ou negligência, e finalmente - entre a alegria viva e a fúria criminosa. Podia rir e se divertir, e de repente sair e quebrar algo com a violência de um louco. Às vezes pensava sobre isso, mas na maior parte do tempo não estava nem aí para pensar nisso. Lembrava de se sentir assim antes, especialmente quando tinha seus vinte anos, cheio de atrevimento louco, fúria bêbada suicida, e agora estava de volta, mas não havia mais alegria, de algum modo não havia mais beleza naquilo, nem a admiração e o prazer de um jovem naquilo, e lhe parecia que alguma coisa tinha terminado."
Jack Kerouac, Cidade Pequena, Cidade Grande
Se ele me conhecesse não teria me descrito tão bem. Com o final próximo, a beleza do livro só aumenta.
Jack Kerouac, Cidade Pequena, Cidade Grande
Se ele me conhecesse não teria me descrito tão bem. Com o final próximo, a beleza do livro só aumenta.
Tuesday, June 15, 2010
I live upstairs from you
"Jeepo soltou um grito alegre e delirante. De repente Francis percebeu, com um horror secreto, que a loucura era a única chave para a felicidade ininterrupta e desimpedida; soube disso em um lampejo."
Jack Kerouac, Cidade Pequena, Cidade Grande
Eu adoro Lemonheads. Defino, mesmo nos discos mais ogros (não chegam a ser, mas não consegui achar uma palavra melhor, então paciência), como uma banda suave. Não importa se são escrotos ao vivo e se deliraram em uma música psicodélica de dez minutos. Lamentável que artistas desprovidos de talento tenham gravado versões absurdamente toscas de Luka e eternizado em trilhas de novelas uma melodia tão bonitinha de forma tão cafona. Para uma vida COM SENTIDO, acho que todo mundo devia ter, pelo menos, um disco deles na sua coleção (mesmo que virtual).
If you hear something late at night
Some kind of trouble, some kind of fight
Just don't ask me what it was
Jack Kerouac, Cidade Pequena, Cidade Grande
Eu adoro Lemonheads. Defino, mesmo nos discos mais ogros (não chegam a ser, mas não consegui achar uma palavra melhor, então paciência), como uma banda suave. Não importa se são escrotos ao vivo e se deliraram em uma música psicodélica de dez minutos. Lamentável que artistas desprovidos de talento tenham gravado versões absurdamente toscas de Luka e eternizado em trilhas de novelas uma melodia tão bonitinha de forma tão cafona. Para uma vida COM SENTIDO, acho que todo mundo devia ter, pelo menos, um disco deles na sua coleção (mesmo que virtual).
If you hear something late at night
Some kind of trouble, some kind of fight
Just don't ask me what it was
Sunday, June 13, 2010
divido o que temo
I can't think with all this noise
they're playing love songs on your radio tonight
I don't get those songs on mine
you keep fucking up my life
vontade de reler big sur, mas preciso terminar cidade pequena, cidade grande.
onde estão as pessoas que vivem como cody pomeray?
eu seria sal paradise e você minha rota 66.
they're playing love songs on your radio tonight
I don't get those songs on mine
you keep fucking up my life
vontade de reler big sur, mas preciso terminar cidade pequena, cidade grande.
onde estão as pessoas que vivem como cody pomeray?
eu seria sal paradise e você minha rota 66.
Tuesday, June 01, 2010
tanto faz
se é na voz da billie holiday, nina simone ou chan marshall; deguste.
Hush now, don't explain
You're the cause of all my trouble and pain
Unless you're mad
Don't explain
My love, my love, my love
Don't explain
There is nothing within me now to gain
You know that I love you
Look at what loving has done
All my thoughts were real
And so sincere
I'm so completely yours
You know I hear folks cha-cha-cha-chatter
And I know you cheat
Right or wrong, that don't matter
You're here with me
Sit down, have a seat
It's your time to feel the pain
It's your time to weep
Don't explain
Hush now, don't explain
There is nothing within me now to gain
I'm gonna skip it instead
Don't explain
Don't explain
fotinho tirada por mim. cat power @ opinião - porto alegre, 20.05.2010
Hush now, don't explain
You're the cause of all my trouble and pain
Unless you're mad
Don't explain
My love, my love, my love
Don't explain
There is nothing within me now to gain
You know that I love you
Look at what loving has done
All my thoughts were real
And so sincere
I'm so completely yours
You know I hear folks cha-cha-cha-chatter
And I know you cheat
Right or wrong, that don't matter
You're here with me
Sit down, have a seat
It's your time to feel the pain
It's your time to weep
Don't explain
Hush now, don't explain
There is nothing within me now to gain
I'm gonna skip it instead
Don't explain
Don't explain
fotinho tirada por mim. cat power @ opinião - porto alegre, 20.05.2010
Wednesday, May 19, 2010
amanhã é o grande dia.
We won't have a thing
So we'd got nothing to lose
We can all be free
Maybe not with words
Maybe not with a look
But with your mind
Cat Power - Maybe Not
So we'd got nothing to lose
We can all be free
Maybe not with words
Maybe not with a look
But with your mind
Cat Power - Maybe Not
Tuesday, May 11, 2010
fala mais baixo.
"Ele caminhou absorto em seus próprios pensamentos. Teve de abrir caminho através de multidões que surgiram em seu caminho, passou por bares e restaurantes e lanchonetes nos quais as pessoas tinham começado a soprar cornetas de papel e a sacudir chocalhos em um frenesi de festividade.
Ele virou rapidamente em uma rua lateral estreita e caminhou por cortiços amontoados. Havia luzes acesas em algumas janelas, e Francis podia ouvir todos os tipos de barulhos alegres lá dentro. "Feliz ano novo!", sorriu com malícia. "Adeus ano velho, seus idiotas, bem vindo novo ano - bem vindos mais estupidez, mais miséria cruel, mais absurdos, mais caos. Mas, em nome de deus, não saia da linha ou o próximo na fila vai tomar sua vida à força. Cuidado com esse orçamento. Responsabilidades a cumprir, você sabe. Ame sua mulher e seus filhos, fomente a raça subumana. Aprenda a aceitar o golpe de seu próximo na fila. Pode fazer o que quiser, só não se revolte! O chicote, e não a morte. Quanto a mim, senhoras e senhores, vou abandonar o navio, que está afundando."
Jack Kerouac, Cidade Pequena, Cidade Grande
Lembrei daquele meu ano novo sozinha em casa escutando o Jukebox da Cat Power, depois ri pensando neste último, que passei na beira da praia com mil pessoas bêbadas alegres e numa situação "tenho 14 anos novamente". Tudo diferente, mas no fim as coisas permanecem iguais. Estou me apaixonando profundamente por esse livro, algo que eu duvidei que aconteceria. Recomendo desde já.
Saturday, May 01, 2010
dream is destiny
I feel like my transport should be an extension of my personality. And this is like my little window to the world... and every minute's a different show. I may not understand it. I may not even necessarily agree with it. But I'll tell you what I've accepted: just sort of glide along. You want to keep things on an even key, this is what I'm saying. You want to go with the flow. The sea refuses no river. The idea is to remain in a state of constant departure while always arriving. It saves on introductions and goodbyes. The ride does not require explanation - just occupance. That's where you guys come in. It's like you come onto this planet with a crayon box. Now you may get the 8 pack, you may get the 16 pack but it's all in what you do with the crayons - the colors - that you're given. Don't worry about coloring within the lines or coloring outside the lines - I say color outside the lines, you know what I mean? Color all over the page; don't box me in! We're in motion to the ocean. We are not land locked, I'll tell you that.
Friday, April 30, 2010
yesterday is here
"Fica-se ausente apenas o tempo suficiente para aprender a lição. Certas pessoas aprendem mais depressa do que outras. Eu aprendo muito depressa. O trabalho que me deram para fazer em casa, já está feito. Sei que a terra é redonda, mas sei também que isso não tem a menor importância. Sei que existem mapas da terra que mostram um país chamado América. Isso também não tem grande importância. Você costuma sonhar? Você costuma sair do seu locus perdidibus e misturar-se aos outros habitantes da terra? Você costuma visitar outras terras, quaisquer que sejam seus nomes? Você sente vontade de apanhar uma estrela? Você acha que o avião é muito pequeno, muito inibido? Será que você é um errante que toca instrumentos de cordas mudas? Ou será que você é um côco que cai no chão e só faz barulho?"
"O mais importante é ser capaz de viver com você mesmo, de gostar de você mesmo, de se aturar, de não precisar de outras pessoas em volta da gente o tempo todo. É isso o que eu penso, errado ou certo. E é por isso que eu vivo no deserto. Talvez eu não saiba muita coisa, mas o que eu sei, aprendi sozinho."
Henry Miller, Pesadelo Refrigerado
"O mais importante é ser capaz de viver com você mesmo, de gostar de você mesmo, de se aturar, de não precisar de outras pessoas em volta da gente o tempo todo. É isso o que eu penso, errado ou certo. E é por isso que eu vivo no deserto. Talvez eu não saiba muita coisa, mas o que eu sei, aprendi sozinho."
Henry Miller, Pesadelo Refrigerado
Monday, April 26, 2010
amor insatisfeito.
"Numa das prisões que esteve, Clausen apaixonou-se por uma mulher que era, assim como ele, uma prisioneira. Nunca puderam falar um com o outro, nem sequer tocar-se com a ponta dos dedos. De vez em quando conseguiam escrever um bilhetinho um para o outro. O caso durou cinco anos. A mulher tinha assassinado os filhos com uma machadinha. Tratava-se de uma linda mulher que tinha uma alma. Não fora ela quem matara as crianças, mas a lâmina afiada da machadinha. De vez em quando, à distância, seus olhares se encontravam. Noite e dia, mês após mês, ano após ano, seus olhares continuaram a encontrar-se, apesar de todas as barreiras. Nesses olhares nasceram línguas, lábios, ouvidos, eles aprenderam a refletir todos os pensamentos dos dois, todos os seus impulsos. Em que imensa agonia, em que tormento selvagem e desesperado pode o amor se transformar em circustâncias como essas! O amor desprendeu-se daqueles corpos, soltou-se pelo mundo, tentando alcançar tudo, livre, liberto de todas as barreiras, como os loucos. Dois criminosos amando-se com os olhos até a morte. Não será essa uma das mais requintadas formas de tortura que se possa imaginar?"
"Ele está pensando numa forma de explicar como e o que o faz sofrer. Ele está querendo saber se existe neste mundo alguém que tenha uma alma e um coração suficientemente grandes para compreender o que ele está querendo dizer. Há tanta coisa a dizer antes de entrar no grande assunto, que será que existe alguém com paciência suficiente para ouvir a estória até o fim? O sofrimento não é apenas uma coisa: é composto de um número infinito de átomos, cada um deles formando um universo no grande macrocosmo da dor. Pode ter início em qualquer lugar, ser consequência de qualquer coisa - até mesmo de uma palavra boba - e pode construir uma catedral de dimensões fantásticas que não ocuparia mais espaço do que a cavidade de um átomo. Isso para não falar nas terras que ficam ao seu redor, em costas marítimas, crateras vulcânicas, lagoas pouco profundas etc. O músico tem um instrumento de trabalho, o cirurgião tem suas ferramentas cirúrgicas, o arquiteto tem suas plantas, o general, seus subalternos, o idiotas suas idiotices, o que sofre tem tudo do Universo, menos alívio."
Henry Miller, Pesadelo Refrigerado
"Ele está pensando numa forma de explicar como e o que o faz sofrer. Ele está querendo saber se existe neste mundo alguém que tenha uma alma e um coração suficientemente grandes para compreender o que ele está querendo dizer. Há tanta coisa a dizer antes de entrar no grande assunto, que será que existe alguém com paciência suficiente para ouvir a estória até o fim? O sofrimento não é apenas uma coisa: é composto de um número infinito de átomos, cada um deles formando um universo no grande macrocosmo da dor. Pode ter início em qualquer lugar, ser consequência de qualquer coisa - até mesmo de uma palavra boba - e pode construir uma catedral de dimensões fantásticas que não ocuparia mais espaço do que a cavidade de um átomo. Isso para não falar nas terras que ficam ao seu redor, em costas marítimas, crateras vulcânicas, lagoas pouco profundas etc. O músico tem um instrumento de trabalho, o cirurgião tem suas ferramentas cirúrgicas, o arquiteto tem suas plantas, o general, seus subalternos, o idiotas suas idiotices, o que sofre tem tudo do Universo, menos alívio."
Henry Miller, Pesadelo Refrigerado
Tuesday, April 20, 2010
surrender, rent it, it's yours.
Engraçado é lembrar que com 17-18 anos eu assisti a um dvd deles e a única coisa que eu gostei foi do fato deles tocarem em um hospício e do vocal subir numa cesta de basquete. O que importava, na época, era quem estava com o note no colo mostrando as músicas. Nem ouví nada. O tempo passa, ainda bem, e agora eu vejo a beleza incomensurável dessa banda. Cada semana eu descubro a nova "MÚSICA QUE DIZ TUDO QUE EU PENSO". Fora que são dançantes (vou apanhar por dizer isso, mas ok) e grudam na cabeça até tu começar a cogitar sair correndo pelado. Hoje vou de Epic Problem (não por acaso).
congratulations. stop. wish i could be there. stop.
tell me something i don't know.
is there anything left to know? stop. stop. stop. stop. stop.
accessory accessory accessory accessory accessory accessory
we regret to inform. stop. miss you dearly signed sincerely. stop.
tell me something that i dont' know is there anything left to know?
stop. stop. stop. stop. stop.
accessory accessory accessory accessory accessory accessory
to the time. time. time. time.
i've got this epic problem this epic problem's not a problem for me
and inside i know i'm broken but i'm working as far as you can see
i've got this epic problem this epic problem's not a problem for me
and inside i know i'm broken but i'm working as far as you can see
and outside it's all production it's all illusion set scenery
i've got this epic problem this epic problem's not a problem for me.
Monday, April 19, 2010
e quem não procura?
"Para saber o que significa a paz, o homem tem que ter lutado, tem que ter atravessado o período heróico, antes de poder comportar-se com inteligência. Tem que ser vítima de suas paixões antes de saber como dominá-las. Para despertar a natureza apaixonada do homem, entregá-lo ao diabo e submete-lo ao teste supremo, tem que existir um conflito que envolva mais do que um simples país, que princípios políticos etc. A verdadeira guerra surge quando o homem se envolve e se revolta contra a sua insaciável natureza. É uma guerra sem derramamento de sangue, que não cessa e que se chama evolução. (...)
Existem experiências que são feitas com grande precisão e cuidado, porque os resultados já foram previstos de antemão. O cientista, por exemplo, sempre se propõe a resolver problemas solúveis. Mas a experiência do homem comum não é dessa natureza. A solução da grande experiência está dentro do coração; as pequisas tem que ser feitas de fora pra dentro. Temos medo de confiar nos nossos corações. Habitamos um mundo que pensa, um labirinto no interior do qual um monstro está esperando para nos devorar. Até agora estivemos caminhando numa sequência - ou, mais claramente, por um caminho que é uma sequência mitológica de sonhos, não encontrando soluções, porque estamos sempre fazendo as perguntas erradas. Só encontramos aquilo que procuramos e estamos procurando no lugar errado. Temos de sair da escuridão, abandonar essas explorações, são são apenas fugas do medo. Temos que deixar de engatinhar e sair da toca de pé, de cabeça erguida, prontos para expor-nos a tudo."
Henry Miller, Pesadelo Refrigerado.
Existem experiências que são feitas com grande precisão e cuidado, porque os resultados já foram previstos de antemão. O cientista, por exemplo, sempre se propõe a resolver problemas solúveis. Mas a experiência do homem comum não é dessa natureza. A solução da grande experiência está dentro do coração; as pequisas tem que ser feitas de fora pra dentro. Temos medo de confiar nos nossos corações. Habitamos um mundo que pensa, um labirinto no interior do qual um monstro está esperando para nos devorar. Até agora estivemos caminhando numa sequência - ou, mais claramente, por um caminho que é uma sequência mitológica de sonhos, não encontrando soluções, porque estamos sempre fazendo as perguntas erradas. Só encontramos aquilo que procuramos e estamos procurando no lugar errado. Temos de sair da escuridão, abandonar essas explorações, são são apenas fugas do medo. Temos que deixar de engatinhar e sair da toca de pé, de cabeça erguida, prontos para expor-nos a tudo."
Henry Miller, Pesadelo Refrigerado.
Saturday, April 17, 2010
ball and chain
"...mas para mim foi uma rejeição arrasadora, uma das poucas de que posso me lembrar e que a minha alma infantil não conseguiu suplantar com a autopreservação emocional adequada, possivelmente porque assinalou a primeira ocasião em que quis alguma coisa o suficiente para ter lutado por ela até o amargo final, mesmo quando pressentia a derrota durante o tempo inteiro em que estava lutando."
Neal Cassady, O Primeiro Terço
Neal Cassady, O Primeiro Terço
Wednesday, April 14, 2010
seja bem vindo, mike ness.
I know a girl who warns the dangers of love
all the pain and the anguish, the sorrow that it brings
she keeps herself in a world that's protected
her outsides are tough
but inside her heart longs to sing
Don't let your walls down
You might fall in love, you might fall in love
He's gonna get his girlfriend's name tattooed on his neck
and hope he never, never lives to regret
he's gonna walk down that long, dark alley
and what he finds there you know he'll never forget
They're crashing down now, you might fallin love
I remember a time I believed
that the words love and pain were both on in the same
I'm gonna trade in my old ways for a new shot at life
I'm gonna change, change my direction
I'm gonna change my ways
They're crashing down now
Its you I'm thinking of, its you I'm thinking of
Lets fall in love.
Social Distortion - FAITHLESS
Se tocar essa, fico pelada. Choro. Mal posso acreditar que é HOJE!
all the pain and the anguish, the sorrow that it brings
she keeps herself in a world that's protected
her outsides are tough
but inside her heart longs to sing
Don't let your walls down
You might fall in love, you might fall in love
He's gonna get his girlfriend's name tattooed on his neck
and hope he never, never lives to regret
he's gonna walk down that long, dark alley
and what he finds there you know he'll never forget
They're crashing down now, you might fallin love
I remember a time I believed
that the words love and pain were both on in the same
I'm gonna trade in my old ways for a new shot at life
I'm gonna change, change my direction
I'm gonna change my ways
They're crashing down now
Its you I'm thinking of, its you I'm thinking of
Lets fall in love.
Social Distortion - FAITHLESS
Se tocar essa, fico pelada. Choro. Mal posso acreditar que é HOJE!
Monday, April 12, 2010
90%
"O homem nem sequer começou a pensar. Mentalmente, ainda anda de quatro. Está tateando no meio do nevoeiro, de olhos fechados, o coração batendo de medo. E o que mais teme - deus de misericórdia! - é a sua própria imagem."
Henry Miller, A Hora dos Assassinos - um estudo sobre Rimbaud
Henry Miller, A Hora dos Assassinos - um estudo sobre Rimbaud
Friday, April 09, 2010
a leitura que me consome
"A única e decisiva pergunta que se nos depara é: até quando será possível adiar o inevitável?"
"A descoberta da energia atômica ocorreu simultaneamente com a descoberta de que nunca mais poderemos confiar uns nos outros. É aí que está a fatalidade - neste modo apocalíptico que nenhuma bomba pode eliminar. O verdadeiro renegado é o homem que perdeu a fé em seu semelhante. Hoje essa perda é universal. Nesse sentido, o próprio deus nada mais pode fazer. Colocamos a nossa fé na bomba e é ela quem atenderá as nossas preces."
Henry Miller, A Hora dos Assassinos - um estudo sobre Rimbaud
Monday, April 05, 2010
não levante antes do meio dia.
wanda: o que você sabe fazer bem, então?
hank: FOFOCA.
não lembro se esse diálogo é do factotum ou barfly, todo caso, vejam apenas o primeiro citado. além de ser relativamente engraçado, termina com ROLL THE DICE. hollywood é um bom livro, mas resultou num péssimo filme.
Friday, April 02, 2010
boa tática.
"Seu pai tinha lidado tão pouco com mal, nunca lhe dando uma só oportunidade e negando sua importância, de modo que o mal não tinha nem situação, nem forma, nem dignidade. Ele tratava o mal como um velho amigo em quem confiava, pensou David, e o mal, ao atingi-lo, jamais soube que o tinha acertado. Seu pai não era vulnerável, ele o sabia, e, ao contrário da maioria das pessoas que tinha conhecido, somente a morte poderia matá-lo."
Ernest Hemingway, O Jardim do Éden
Ernest Hemingway, O Jardim do Éden
BIG SUR
Terminei de ler Big Sur há alguns dias e precisava comentar sobre. Esse livro é obrigatório para qualquer um que tenha lido outra coisa do Kerouac (tá,exceto para os que acham que a vida se baseia em on the road e uhu, somos loucos e livres). Retrata a neura, ansiedade, decadência, alcoolismo, o saco cheio do cara com 40 anos e tendo sua casa invadida de madrugada por jovens com jaquetas estampando "vagabundos iluminados" nas costas ou coisas do gênero. Foi o livro mais realista e sincero que eu li dele, apesar de soar menos intenso que os outros (creio que isso se deva a existência de PONTUAÇÃO). Em muitas partes eu pensei: "entendo". Se por um lado eu já tinha cansado de ler as histórias corridas e noites insanas ou sobre a mente de Cody Pomeray, agora vi o lado menos romântico das coisas e a minha admiração por ele triplicou.
Sinto que não consegui demonstrar nem um terço do que esse livro tem de interessante, mas tudo e nada é por acaso, então quem quiser que leia. Seguirei levando o teu vazio a diante.
Sinto que não consegui demonstrar nem um terço do que esse livro tem de interessante, mas tudo e nada é por acaso, então quem quiser que leia. Seguirei levando o teu vazio a diante.
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