Tuesday, May 08, 2012

"Para saber o que é não ter nada, é preciso não ter nada." Aparentemente uma observação trivial, mas tão verdadeira.
Poucos daqueles que leram essas palavras, se é que existe algum, já experimentaram tal condição de privação absoluta. Resmungamos e nos queixamos quando sofremos pequenas perdas, pequenos reveses. Do ponto de vista da alma, penúria e privação são elementos importantes na formação do caráter.

Henry Miller, Deslizando para os Everglades e outros ensaios

Thursday, April 26, 2012

I lost myself on a cool damp night
Gave myself in that misty light
Was hypnotized by a strange delight
Under a lilac tree

I made wine from the lilac tree
Put my heart in its recipe
It makes me see what I want to see
And be what I want to be

When I think more than I want to think
Do things I never should do
I drink much more than I ought to drink
Because it brings me back you

Lilac wine is sweet and heady, like my love
Lilac wine, I feel unsteady, like my love

Listen to me...
I cannot see clearly
Isn't that she coming to me nearly here?

Lilac wine is sweet and heady, where's my love?
Lilac wine I feel unsteady, where's my love?

Listen to me, why is everything so hazy?
Isn't that she, or am I just going crazy, dear?
Lilac wine, I feel unready for my love

Wednesday, April 11, 2012

não tá fácil pra ninguém

[post editado em respeito...] porém, block de amor não dói.

agora o outro lado da moeda:

estou sofrendo por amor. estou morrendo de saudade. amor e ódio. agonia. tensão. ciúmes doentio. quero matar! quero escrever 80 mil linhas falando de como me corrói por dentro esse sentimento arrebatador, falar sobre como eu tô confusa, de como não sei o que fazer, de como eu acho que cada palavra é uma nova história e que amanhã tu vai casar e me esquecer e que eu não fui importante e que não vai ter volta... e que ninguém vai me fazer rir como eu ri nos últimos meses. quero mandar e-mail xingando, quero mandar mensagem falando que na verdade eu tenho saudade e foda-se tudo que deu errado, que eu sei onde eu errei, mas que... aaaa! eu não errei sozinha! meu coração dói. e eu me sinto idiota em pensar que talvez seja bobagem adolescente e que daqui um tempo eu vá rir e sentir vergonha de ter sentido isso, mas no momento é o que faz sentido. minha cabeça fica a mil na hora de dormir, tento me concentrar em outras coisas, mas só de pensar naquele amorzinho que eu tive e deixei escapar, ah, volta tempo, apaga tudo. sabe aquela sensação de que tu te importa muito com alguém que simplesmente segiu a vida e tu não fez falta alguma? tenho medo de estar certa. mas enfim, eu sofro, me escabelo, reclamo, faço as minhas teorias e no fim das contas não vou fazer nada. simples assim. let it be, baby. não luto mais por amor, mas ah! como eu sofro...

[post atualizado por motivos de que a vida acontece e as coisas mudam em horas e tudo mudou]

então eu fui em um show. encontrei meu ''amorzinho'' lá. ele foi um completo imbecil. provavelmente estava on drugs. me tratou com total indiferença, pensei por um momento que tinha 15 anos e estava numa festa. enfim, por um minuto achei que ter ido foi o maior erro do ano, que falei bobagem, etc, MAS, ATENÇÃO, não vá embora antes da hora. pra começo de conversa, meu telefone tocou. era meu ex. ok, isso não mudaria nada, porém, eu gosto de ser lembrada, ok? e convenhamos, pra quem estava sendo odiada, até que eu melhorei de status. depois, encontrei amigos de longa data que eu não via há tempo, consegui me distrair DE FATO, ri muito, aproveitei totalmente o show, mesmo estando com salto 15 em pé há horas e com dor. ah mal, ae, mas eu sou vaidosa mesmo. encontrei uma pessoa deveras interessante que eu não tinha notícias há muitos meses [sabe aquele sentimento esquecido de hmmm, existem pessoas além dessas que eu vejo todo dia? é bom]. fui trovada loucamente [sem chance, mas é bom pro ego, sempre é bom]. O THURSTON MOORE é o cara mais engraçado do planeta. boa praça. estava totalmente fora da casa, mas não mais que um dos amigos de canoas. enfim, voltando... basicamente eu saí de casa apaixonada e parece que acordei de um sonho, que me mostraram algo que eu não conhecia, que caiu a ficha, que eu vi a situação por outro ângulo. é muito estranho. quando alguém que tu considera especial e teve algo APARENTEMENTE especial recentemente te trata como um completo estranho faz parecer que DE FATO É UM ESTRANHO. não conheço aquele guri, não sei quem é, só sei que ele não passou dias e dias na minha casa. ele é mais um. talvez amanhã eu fique nostálgica, talvez eu descubra algo no fim de semana e tenha raiva, mas por hora... estou me sentindo feliz e satisfeita. tive uma noite ótima, não precisei ficar com nenhum idiota ou beber ou fingir ser algo que eu não sou.

nada é por acaso.

eu poderia vir aqui e apagar tudo por orgulho, poderia mandar um e-mail desaforado, ah, podia tantas coisas, mas eu acho incrível como os sentimentos mudam e são imprevisíveis e como a vida não faz porra de sentido nenhum as vezes e do nada faz todo. deixa estar, eu aprecio. vai saber como eu vou me sentir amanhã, né? deus saberia, se ele existisse.

nothing means nothing e para siempre means forever.

Tuesday, March 27, 2012

back to school

É com muito pesar que eu sento aqui para escrever sobre a minha época escolar. Tenho boas lembranças soltas, por exemplo uma professora de História muito animada que sapateava no tablado, ou de quando fizemos o interior de uma célula em uma bola de isopor, ou passeios, quando eu traduzi Imagine na aula de inglês, brincadeiras na hora da saída, vídeos (sempre tínhamos que filmar algo em grupo, tenho boas recordações disso). Basicamente as minhas memórias são de aulas práticas, atividades diferentes e uns poucos professores mais marcantes, mas no geral me sinto angustiada e triste quando lembro desses anos que passei presa ao colégio. Ao estudo não digo, pois não é esse o x da questão.
No colégio eu perdi toda inocência possível, descobri que eu podia ser gorda e feia e que se eu falasse algo para uma pessoa isso chegaria no ouvido de tantas outras. Tive medo de ir para aula, me senti excluída, me senti sozinha, me senti injustiçada, me senti ridicularizada. Hoje em dia se chama bullying e todo mundo leva a sério, na minha época não tínhamos para quem reclamar, então a única opção era sofrer em silêncio ou reclamar para algum professor que prontamente ignorava. Como esquecer de quando eu fui com uma camiseta dos Beatles na quarta série e virei motivo de piada e a professora me condenou quando protestei, afinal, eles não eram meus pais para que eu os defendesse. Se agora se fala em valorizar as diferenças e inclusão, há 20 anos eles queriam te pôr na fôrma de qualquer jeito, entre na linha, seja igual, leia e concorde. E não estou exagerando. Tive que ler a bíblia por anos mesmo não tenho religião. Não houve diálogo, o professor sempre teve razão independentemente do fato.
Meu primeiro colégio (tirando a escola primária, que era perto de casa e da qual só tenho lembranças incríveis, inclusive de diálogos) está entre os melhores de Porto Alegre, senão o melhor. Ensinando a pensar. Ótimas instalações, realmente oferece uma infra estrutura maravilhosa. Biblioteca, laboratórios, ginásios, vasta área verde, etc.
Algo que eu acredito ter tirado de bom de lá foi o hábito da leitura. Toda semana tirávamos um livro da caixa-estante e líamos, depois trocávamos com um colega e assim o ano inteiro. Li toda coleção Vaga Lume. A droga da Obediência, enfim, levei isso pra vida. Leio até hoje. Mas basicamente só isso. Rodei em matemática na oitava série, nunca entendi a matéria, nem depois de formada no supletivo (abandonei o segundo-ano, já em outro colégio). Sempre tive facilidade nas humanas e dificuldade nas exatas. Dificuldade leia como quase um bloqueio.
Resumindo, ao longo dos anos fui cada vez me sentindo menos a vontade nesse ambiente, não me encaixei, briguei nas aulas de religião, fui na diretoria, briguei com os colegas, fui muito ofendida e até hoje lembro da expressão do Fernando Santos (inocente criança de 9 anos) jogando meus defeitos na minha cara sem motivo nenhum (mesmo), apenas por diversão. Perdi o prazer em estar lá. Esse foi o colégio Anchieta que eu estudei e esse tipo de instituição eu não quero que os meus filhos, caso eu os tenha, chegue perto. Tem coisas que só o colégio pode fazer por você. E algumas são terríveis.

Saturday, March 24, 2012

I

Celebro-me e canto-me
E aquilo que assumo tu deves assumir,
Pois cada átomo que a mim pertence a ti pertence também.

Vagueio e convido a minha alma,
À vontade vagueio a inclino-me a observar a erva do verão.
A minha língua, cada átomo do meu sangue, composto deste solo, deste ar,
Aqui nascido de pais aqui nascidos de outros pais aqui nascidos, e dos teus
pais também,
Eu, aos trinta e sete anos, de perfeita saúde começo,
Esperando que só a morte me faça parar.

Suspensos os credos e as escolas,
Retiro-me por certo tempo, de saturado mas não esquecido,
Sou o porto do homem e do mal, e seja como for falo,
Natureza sem obstáculos com a sua energia original.


XXVII

O que significa ser, em qualquer das suas formas?
(Às voltas e voltas andamos e voltamos sempre aí),
Se mais nada tivesse evoluído, suficiente seria a ameijoa na sua concha dura.

A minha concha não é dura,
Instantâneos transmissores percorrem-me quando ando e quando páro,
Eles tomam cada objeto e conduzem-no sem danos até mim.

Mexo, aperto, sinto com os meus dedos, e sou feliz,
Não posso deixar de tocar os outros.

Walt Whitman, Canto de Mim Mesmo

Sunday, March 04, 2012

''o pano nunca cai''

o problema da pessoa que foi traída é que ela precisa de todo tipo de reforço e segurança e prova e paciência e transparência na relação e uma vírgula no lugar errado já traz todo passado à tona e desencadeia uma série de pensamentos catastróficos onde tudo se une e parece ser mais uma peça do quebra-cabeça que se encaixa provando que novamente se foi logrado.

é difícil fechar os olhos.

what I used to be will pass away
and then you'll see... ou não.

Friday, February 24, 2012

trecho sobre Êxtase, de Machaty

O marido que morre com os óculos na mão é uma representação típica da condição do homem moderno, que vive inteiramente em luz artificial e que, mesmo na morte, persiste agarrado à sua falsa visão. Nasceu com óculos e morre com eles - os óculos de grossas lentes de cor que o oculista, a sociedade, lhe fornece quando ainda está no útero. Ele nunca contemplou verdadeiramente a vida, e poderá perguntar-se se alguma vez conhecerá a morte. A vida passa por ele, e a morte também. Continua a viver, imortal como uma barata.

Henry Miller, O Olho Cosmológico

Thursday, February 23, 2012

Amanhã não é nenhum dia incerto - é um dia como outro qualquer: amanhã é o resultado de muitos ontens e surgirá com um efeito potente, acumulativo. Serei amanhã o que decidi ser ontem e antes de ontem. Não é possível que amanhã possa negar e anular tudo o que me conduziu ao momento presente.

Henry Miller, O Olho Cosmológico

Saturday, February 18, 2012

música do dia

amo músicas natalinas e isso não é segredo [oi to the world, meu disco preferido do vandals, me entrega], ou seja, quase infartei quando descobri 'got something for you' do wavves com best coast. tem sinos e uh uh uhs, só faltou palminhas [se eu não ouví por favor me avisem].

Tuesday, January 03, 2012

vaso com flores

É engraçado como um livro ou um disco podem ter um efeito totalmente diferente na gente dependendo da época. Eu lembro que quando li Sonhos de Bunker Hill há alguns anos achei incrível e, ano passado, ao reler, achei raso.

Bom, estou aqui só pra abrir meu coração sobre o disco Myra Lee da Cat Power. Logo que eu comecei a escutar as músicas dela achei esse álbum intragável, soava um tanto quanto perturbador. Eis que o tempo passou e eu fui me apaixonando por uma música atrás da outra e agora é o meu disco preferido. Ele é cru, ecoa, é como alguém gritando num salão vazio. Acredito que tenha sido uma fase de muitas drogas. Enough é uma facada no peito, afinal, quem consegue achar o suficiente para tirar de nós? Still in love é a balada arrebatadora, tenho vontade de abraçar a música. Fala do amor perdido, aquele sentimento mais clássico de tristeza ao ver a pessoa com outra e parecendo feliz. Básico, real, simples assim, lindo. Wealthy Man é suave e triste, Top Expert belíssima, Rockets jovial, Great Expectations envolvente e o resto não importa. Essas me bastam. Sei que esse disco não agradará 80% das pessoas, mas chega um momento da vida que apenas ele faz sentido. Cheguei lá. Depressivo? Não, profundo apenas. Obrigada, Chan.

Monday, December 05, 2011

cansei de me cansar

descobri como se supera um amor antigo.
querendo.

Friday, November 04, 2011

se pá

Se sou tudo o que há, não vale a pena preocupar-me.

A esperança é uma coisa má. Significa que se não é o que se deseja ser. Significa que parte de nós está morta, se não estivermos inteiramente mortos. Significa que nos alimentamos de ilusões.

É-me completamente indiferente o destino do mundo. Não sou pessoa de reservas nem faço compromissos. Sou - e isso é tudo.

Com cada uma das linhas que escrevo liquido o 'artista' em mim. Com cada uma das linhas cometo um homicídio em primeiro grau ou suicídio. Não desejo alimentar as esperanças dos outros, nem inspirar outros. Se soubéssemos o que é ser inspirado não inspiraríamos. Seríamos, simplesmente.

Henry Miller, O Olho Cosmológico

Friday, September 30, 2011

tentando voltar

Ele possui então aquele olhar de atenção concentrada que vem e vai como a luz de um farol, mas é tão intensa, que por longo tempo ainda sentimos a sua claridade atrás de nós.

Em lugar algum parecia haver espaço para um acaso.

Rainer Maria Rilke, Auguste Rodin

Wednesday, July 06, 2011

Essa vida compreende talvez todas as suas horas passadas, as horas da expectativa e da solidão, as horas da incerteza e as longas horas de angústia.

Rainer Maria Rilke, Auguste Rodin

Wednesday, June 15, 2011

There's something romantic about the man
Who went down with his ship.
And I can tell all my friends
About the hero who died at sea.
Everybody humors, everyone laughs
when I tell about the things you've done.
But theres nothing romantic
about the empty shoreline where I wait.

ALL - Explorador

Wednesday, June 08, 2011

...

Se não me opus à amante, foi porque de todos os poderes que alguém pode exercer sobre outrem, somente o seu, incoercível, parecia-me correto. Abandonado como estou, não era meu desejo evitá-la; anseio, porém, por atravessá-la! Que ela seja uma janela para o mundo ampliado da existência... (não um espelho.)

xxx

Não posso escapar de mim mesmo. Pois se eu desistisse de tudo, tudo, e me atirasse cegamente a teus braços, como por vezes desejo, e aí me perdesse, tearias contigo alguém que houvera desistido de si mesmo: não seria a mim que terias, não a mim.
Não sou capaz de dissimular e me transformar. Exatamente como na minha infância, diante do violento amor de meu pai, ajoelho-me no mundo e peço indulgência àqueles que me amam. Sim, que me poupem! Que não me consumam para sua própria felicidade, mas me assistam a fim de que se desenvolva em mim aquela felicidade mais funda e solitária. Sem a grande demonstração dessa felicidade, por fim, não me haveriam de ter amado.

Rainer Maria Rilke, O Testamento

Tuesday, May 24, 2011

vida de merda

"Tudo que eu tinha que fazer era ficar em casa, desistir de tudo, arranjar uma casinha para mim e pra mamãe, meditar, viver tranquilo, ler ao sol, tomar vinho ao luar com roupas velhas, afagar meus gatos, dormir com bons sonhos - e agora olha só o petrain* em que eu fui me meter, ah merda!"

*bagunça

Jack Kerouac, Anjos da Desolação

Entendo.

Monday, May 23, 2011

...

Será que o hidrante chora tantas lágrimas como eu?

Só o que eu lembro é que antes de eu nascer existia alegria. Na verdade eu lembro a obscura alegria contagiante de 1917 mesmo tendo nascido em 1922! Vésperas de ano-novo passaram e eu era pura alegria. Mas quando fui arrancado do ventre da minha mãe, azul, um bebê azul, eles gritaram para me acordar, e me deram palmadas, e desde então eu sou pessoa castigada e perdida para sempre e tudo mais. Ninguém me dava palmadas na alegria! Será que deus é tudo? Se deus é tudo então foi deus quem me bateu. Por motivos pessoais? Tenho mesmo que carregar este corpo de um lado para o outro e chamá-lo de meu?

Jack Kerouac, Anjos da Desolação

Wednesday, May 18, 2011

beleza

Estava à toa na aula, então resolvi dar uma pesquisada sobre o Henry Miller (estou com saudade) e me deparei com esse belo trecho:

A man writes to throw off the poison which he has accumulated because of his false way of life. He is trying to recapture his innocence, yet all he succeeds in doing is to inoculate the world with a virus of his disillusionment. No man would set a word down on paper if he had the courage to live out what he believed in....

The Rosy Crucifixion I : Sexus
(1949), Chapter 1. (New York: Grove Press, c1965, p. 17-18)

Wednesday, April 06, 2011

mortalhas & hesitações

Há uma árvore neste peito. Sinto-a espalhar-se o tempo inteiro. É o início da primavera. Vou contar a vocês quando as folhas vão começar a cair. Elas nunca irão começar a cair.
Neste peito há uma árvore que nunca pára de crescer.

Diários de Jack Kerouac

Thursday, March 24, 2011

...

You've said all that
Of course I've said all that.
What do you want?
I want to be on fire.
Why?
Because I'm inflammable. I
am serious.
You've said all that -
Of course I've said all that.
You don't know what you want,
And you say life is not enough.
Life is not enough.
Then what is enough?
To feel - or I die.
What will you feel?
Fires.
Then go ahead and burn.
But life is not on fire.
Then die.
Corporeally?
--
Yes.

Jack Kerouac

Wednesday, March 23, 2011

all or nothing at all

Será mesmo que o paraíso está em toda a parte e toda estrada nos leva lá se seguirmos por ela tempo suficiente? Henry, não me abandone neste momento! Acho que terei que ir ao Epidauro para descobrir qual caminho seguir.

Tuesday, March 22, 2011

Segunda-Feira, 23 de Agosto de 1948

Bem, esses são meus sentimentos... Quanto a mim, a base de minha vida vai ser uma fazenda em algum lugar onde vou produzir parte de minha própria comida, e, se necessário, toda ela. Um dia não vou fazer coisa alguma além de sentar embaixo de uma árvore para ver minha lavoura crescer (depois do trabalho devido, claro) - e beber vinho caseiro, e escrever romances para edificar meu espírito, e brincar com meus filhos, e relaxar, e gozar a vida, e brincar, e assoar o nariz. Eu digo que eles não merecem nada além de desprezo por isso, e a próxima coisa que você sabe, claro, eles todos estarão marchando para alguma guerra aniquiladora que seus líderes corruptos começarão para manter as aparências (decência e honra) e "fechar as contas". Afinal, que aconteceria com o sistema precioso de gastos e despesas se nossas exportações encontrassem concorrência na Rússia. Caguei para os russos, caguei para os americanos, caguei para todo mundo. Vou viver a vida do meu jeito "preguiçoso coisa ruim", é isso que eu vou fazer. - Esta noite li Notas do Subterrâneo. Outra noite tinha lido No Coração das Trevas, você sabe. Agora vou ler muito. Também lendo Tom Sawyer Abroad. Comecei o último capítulo em um estilo relaxado, só para ver como vai funcionar. O único problema com meu texto é o excesso de palavras... mas, veja só, "pensamentos verdadeiros" abundam em Town and City, o que anula o mínimo dano do excesso de palavras. Agora vou afiar as coisas. Tenho outro romance em mente - On the Road* - sobre o qual estou sempre pensando: sobre dois caras que vão de carona para a Califórnia em busca de algo que na verdade eles não encontram, e se perdem na estrada, e fazem todo o caminho de volta com esperanças de algo mais. Além disso, estou descobrindo um novo princípio da literatura. Mais depois.

*primeira menção que Kerouac faz a On the Road em seus diários

Saturday, March 12, 2011

não se pode derrotar a sinceridade

Cheguei em casa pensando, "Agora vou contar a vocês o que eu penso sobre tudo". Pensei em "tomar uma decisão" de uma vez por todas, mas acabei percebendo que eu estou no caminho certo em nunca "tomar uma decisão". Ainda digo que minha vida é um esforço contínuo para alcançar a perfeição da dúvida - (e isso é mais religioso do que parece). Meu tipo de dúvida não é propositadamente desdenhosa. Também compreendi que apesar de, na verdade, eu ser um cara muito burro no meio de um monte de amigos inteligentes e brilhantes, eu mesmo tenho uma inteligência significativa. Se eles (sabem tudo), e eu, nada, ainda assim sei a relevância de tudo.

Os homens chegam ao rio do destino e não podem fazer outra coisa que não atravessá-lo.

Diários de Jack Kerouac, 1947-1954